"O homem não é nada em si mesmo. Não passa de uma probabilidade infinita. Mas ele é o responsável infinito dessa probabilidade." Albert Camus
domingo, 17 de fevereiro de 2013
As meninas
Diferentes, iguais
Em todas as épocas
Em todos os tempos...
Onde estão?
Que vidas terão tido?
Ficaram eternizados na fotografia
os sorrisos e a cumplicidade.
....De nada mais queremos saber!
Eugénio de Andrade
È urgente o amor.
È urgente um barco no mar.
È urgente destruir certas palavras,
Òdio, solidão, crueldade
Alberto Caeiro
Num meio-dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia
Vi
Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A
correr e a rolar-se pela erva
E
a arrancar flores para as deitar fora
E
a rir de modo a ouvir-se ao longe.
Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De
segunda pessoa da Trindade.
No
céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No
céu tinha que estar sempre sério
E
de vez em quando de se tornar outra vez homem
E
subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E
os pés espetados por um prego com cabeça,
E
até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O
seu pai era duas pessoas...
Um
velho chamado José, que era carpinteiro,
E
que não era pai dele;
E
o outro pai era uma pomba estúpida,
A
única pomba feia do mundo
Porque não era do mundo nem era pomba.
E
a sua mãe não tinha amado antes de o ter.
Não era mulher: era uma mala
Em
que ele tinha vindo do céu.
E
queriam que ele, que só nascera da mãe,
E
nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a
bondade e a justiça!
Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito
Santo andava a voar,
Ele foi à caixa
dos milagres e roubou três.
Com o primeiro
fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano
e menino.
Com o terceiro
criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o
pregado na cruz que há no céu
E serve de
modelo às outras.
Depois fugiu
para o sol
E desceu pelo
primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança
bonita de riso natural.
Limpa o nariz
ao braço direito,
Chapinha nas
poças de água,
Colhe as flores
e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras
aos burros,
Rouba a fruta
dos pomares
E foge a chorar
e a gritar dos cães,
E, porque sabe
que elas não gostam
E que toda a
gente acha graça,
Corre atrás das
raparigas
Que vão em
rancho pelas estradas
Com as bilhas
às cabeças
E levanta-lhes
as saias.
A
mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a
olhar para as coisas.
Aponta-me todas
as coisas que há nas flores.
Mostra-me como
as pedras são engraçadas
Quando a gente
as tem na mão
E olha devagar
para elas.
Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é
um velho estúpido e doente,
Sempre a
escarrar no chão
E a dizer
indecências.
A Virgem Maria
leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espírito
Santo coça-se com o bico
E empoleira-se
nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é
estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus
não percebe nada
Das coisas que
criou -
«Se é que ele
as criou, do que duvido» -.
«Ele diz, por
exemplo, que os seres cantam a sua glória,
Mas os seres
não cantam nada.
Se cantassem
seriam cantores.
Os seres
existem e mais nada,
E por isso se
chamam seres».
E depois,
cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus
adormece nos meus braços
E eu levo-o ao
colo para casa.
..................................................................
Ele mora comigo
na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna
Criança, o deus que faltava,
Ele é o humano
que é natural,
Ele é o divino
que sorri e que brinca.
E por isso é
que sei com toda a certeza
Que ele é o
Menino Jesus verdadeiro.
E
a criança tão humana que é divina
É esta minha
quotidiana vida de poeta,
E é porque ele
anda sempre comigo que eu sou poeta sempre,
E que o meu
mínimo olhar
Me enche de
sensação,
E o mais
pequeno som, seja do que for,
Parece falar
comigo.
A
Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a
mim
E a outra a
tudo que existe
E assim vamos
os três pelo caminho que houver,
Saltando e
cantando e rindo
E gozando o
nosso segredo comum
Que é o de
saber por toda a parte
Que não há
mistério no mundo
E que tudo vale
a pena.
A
Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direcção do
meu olhar é o seu dedo apontando.
O meu ouvido
atento alegremente a todos os sons
São as cócegas
que ele me faz, brincando, nas orelhas.
Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de
tudo
Que nunca
pensamos um no outro,
Mas vivemos
juntos e dois
Com um acordo
íntimo
Como a mão
direita e a esquerda.
Ao anoitecer brincamos as cinco
pedrinhas
No degrau da
porta de casa,
Graves como
convém a um deus e a um poeta,
E como se cada
pedra
Fosse todo o
universo
E fosse por
isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair
no chão.
Depois eu conto-lhe histórias das cousas
só dos homens
E ele sorri,
porque tudo é incrível.
Ri dos reis e
dos que não são reis,
E tem pena de
ouvir falar das guerras,
E dos
comércios, e dos navios
Que ficam fumo
no ar dos altos-mares.
Porque ele sabe
que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor
tem ao florescer
E que anda com
a luz do sol
A variar os
montes e os vales
E a fazer doer
aos olhos os muros caiados.
Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo
para dentro de casa
E deito-o,
despindo-o lentamente
E como seguindo
um ritual muito limpo
E todo materno
até ele estar nu.
Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes
acorda de noite
E brinca com os
meus sonhos
Vira uns em
cima dos outros
E bate as
palmas sozinho
Sorrindo para o
meu sono.
........................................................
Quando eu
morrer, filhinho,
Seja eu a
criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao
colo
E leva-me para
dentro da tua casa.
Despe o meu ser
cansado e humano
E deita-me na
tua cama.
E conta-me
histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar
a adormecer.
E dá-me sonhos
teus para eu brincar
Até que nasça
qualquer dia
Que tu sabes
qual é.
.........................................................
Esta é a
história do meu Menino Jesus.
Por que razão
que se perceba
Não há-de ser
ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E
tudo quanto as religiões ensinam?
Sou um guardador de rebanhos.
O
rebanho é os meus pensamentos
E
os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E
com as mãos e os pés
E
com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E
comer um fruto é saber-lhe o sentido.
Por isso quando num dia de calor
Me
sinto triste de gozá-lo tanto,
E
me deito ao comprido na erva,
E
fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.
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