domingo, 10 de março de 2013

Joss Stone






Alberto Caeiro.





Alberto Caeiro



Às vezes, em dias de luz perfeita e exacta

Às vezes, em dias de luz perfeita e exacta,
Em que as coisas têm toda a realidade que podem ter,
Pergunto a mim próprio devagar
Porque sequer atribuo eu
Beleza às coisas.

Uma flor acaso tem beleza?
Tem beleza acaso um fruto?
Não: têm cor e forma
E existência apenas.
A beleza é o nome de qualquer coisa que não existe
Que eu dou às coisas em troca do agrado que me dão.
Não significa nada.
Então porque digo eu das coisas: são belas?

Sim, mesmo a mim, que vivo só de viver,
Invisíveis, vêm ter comigo as mentiras dos homens
Perante as coisas,
Perante as coisas que simplesmente existem.

Que difícil ser próprio e não ser senão o visível!

Fernando Pessoa & Cª






Mais tarde, por volta dos 18 anos foi um verdadeiro  amor para a vida e uma contínua descoberta, Fernando Pessoa, ele mesmo.
 Álvaro de Campos, Alberto Caeiro, todos os mundos que nos habitam, encontram-se em recantos dos seus poemas. Um só. Uma” humanidade” com diversos nomes próprios.

Fernando Pessoa 

Não sei quantas almas tenho
                                                                   
Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem achei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.                                                                       
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem,
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: <<Fui eu?>>
Deus sabe, porque o escreveu.

Desconhecidos sob a mesma nuvem.


A descoberta da poesia 1




Na verdade era muito "bicho do buraco" e ainda na pré adolescência descobri uma identificação profunda com a poesia, identificava-me o que me dava o conforto de não estar só, alguém sentira o mesmo (quantos seremos afinal?), abria-me horizontes, obrigava-me a dialogar comigo mesma, a interrogar-me a redescobrir-me e redimensionar o meu mundo, efectivamente a poesia tornou-me melhor pessoa.   
A minha mãe, por volta dos 13 anos apresentou-me a Manuel Bandeira:

Arte de amar

Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus-— ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.

Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.

Porque os corpos se entendem, mas as almas não.

Pablo Neruda

 

Se não puderes ser um pinheiro, no topo de uma colina,
Sê um arbusto no vale mas sê
O melhor arbusto à margem do regato.
Sê um ramo, se não puderes ser uma árvore.
Se não puderes ser um ramo, sê um pouco de relva
E dá alegria a algum caminho.

Se não puderes ser uma estrada,
Sê apenas uma senda,
Se não puderes ser o Sol, sê uma estrela.
Não é pelo tamanho que terás êxito ou fracasso...
Mas sê o melhor no que quer que sejas.




Os livros e eu.










A propósito do post de um amigo, olhei para dentro de mim e procurei sentir quais os livros que mais me marcaram.
Como é habitual não consigo definir um.
Há sempre uma imensidão.
Pelas mais diversas razões  mistura-se tudo na minha cabeça, desde simples recortes de jornais, a frases retiradas de encontros inesperados e escritas a letra corrida,  a letras de canções que são verdadeiros poemas, frases retiradas de filmes que se perderam na memória. Enfim, descobri uma vez mais que tudo me marcou, desde os contos de fadas e o enternecedor e reconfortante - Era uma vez...
Mas sim, há livros que me acompanharam e que me levaram a querer descobrir quem estava por trás deles. O primeiro, não a ser descoberto, mas a ser o mais amado,  Albert Camus, magistral em tudo até na sua qualidade de homem. Todos os seus escritos. Todos.
Depois John Steinbeck em A Leste do Paraíso, fiquei a descobrir  e fez imenso sentido, que do mesmo modo que nascem pessoas deficientes físicas, podem nascer outras aparentemente normais, mas sem capacidades básicas emocionais.
Os Cem Anos de Solidão do Gabriel Garcia Marquez, e todos os outros do mesmo autor que vieram a seguir. A América Latina é pródiga no sortilégio do encantamento da escrita, Jorge Amado e os Capitães da Areia, José Mauro de Vasconcelos e a Rosinha Minha Canoa...Esta foi a minha adolescência...Ainda com o Bom dia Tristeza da Françoise Sagan, ou os Dados estão Lançados do Jean - Paul Sartre e claro, o lido e relido - O Principezinho, do Antoine de Saint-Exupéry.
Estes e muitos outros levaram-me a descobrir mundo dentro do silêncio do meu quarto.
Os nossos autores, alguns esventrados nas aulas de Português, fizeram-me percorrer caminhos de outros tempos, Júlio Diniz, sentia os cheiros, os rubores, as aflições e alegrias dentro do meu peito. Cada fechar de um livro, era um olhar no vazio…dar um tempo de espera e começar outro.   
Eça de Queiroz, era para mim a inteligência em estado puro. O limpar o mofo a uma espécie de superioridade lusa, redimensiona-la e ensinar-nos a rirmos de nós próprios.
 Com Vergílio Ferreira…deslizava na solidão, no drama da condição humana, na morte, como ele próprio tão bem definiu:

 «Não preferi a minha arte. Calhou-me. Ou talvez seja essa a sorte de todas as preferências: escolhe-se sempre o que nos coube, ou seja o que se é. Mas a verdade é que, se na escolha se escolhesse, escolheria a pintura».