terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Poema do Futuro - António Gedeão



Conscientemente escrevo e,conscientemente medito o meu destino.

No declive do tempo os anos correm, deslizam como a água, até que um dia
um possível leitor pega num livro e lê,
lê displicentemente,
por mero acaso, sem saber porquê.
Lê, e sorri.
Sorri da construção do verso que destoa
no seu diferente ouvido;
sorri dos termos que o poeta usou
onde os fungos do tempo deixaram cheiro a mofo;
e sorri, quase ri, do íntimo sentido,
do latejar antigo
daquele corop imóvel, exumado
da vala do poema.

Na história Natural dos sentimentos tudo se transformou.
O amor tem outras falas,
a dor outras arestas,
a esperança outros disfarces,
a raiva outros esgares.
Estendido sobre a página, exposto e descoberto,
exemplar curioso de um mundo ultrapassado,
é tudo o que resta
é tudo o que fica,
de um ser que entre outros seres
vagueou sobre a terra.

Sem comentários:

Publicar um comentário