sábado, 15 de dezembro de 2012

JP


Fazer parecer que tudo é apenas aquilo que deve ser, que nada afinal é o fim do mundo e a vida continua...Fazer parecer, fazer de conta que estamos serenos e resignados, é desgastante e muito cansativo.

Mas, lamentarmo-nos a tudo e a todos, por tudo o que de menos bom nos acontece é para mim uma enorme falta de respeito pelo outro.

È como dizer asneiras, pura e simplesmente não consigo, não sei porquê é uma espécie de retracção interior que nunca explode. Mas como gosto de ouvir amigos e conhecidos a dizê-las!
Tão harmoniosamente enquadradas, até os tornam radiantes aos meus olhos e eu sorrio e rio, aliviada e quase feliz.

Transporto meio século e quatro anos de vida e memórias, mas reparo que em mim o ser adulto anda de mão dada com a criança  que fui, com a adolescente que provavelmente deveria ter sido, com as saudades de todos quantos fizeram parte de diferentes períodos da minha vida.

Na verdade acho que a minha vocação, natural ou induzida pelas circunstâncias, foi, é, a de ser mãe.
Porque ainda hoje acho que foi a única coisa que realmente fui.

Tudo mais apenas vivi. A diferença entre o ser o o viver está na intensidade da entrega.

Não é só o poeta que é um fingidor. Todos nós o somos.A esconder medos, a disfarçar vergonhas, a inventar enredos para compormos a nossa auto estima, a fazer piruetas e rábulas para nos enquadramos num grupo.

Definitivamente viver não é fácil, mas a observação também é absurda porque não há termo de comparação, morrer não sei como é.

Conheço apenas a humidade desconfortável que nos percorre a alma e chega até aos nossos olhos como um nevoeiro de média intensidade, quando pensamos em alguém muito próximo que partiu.

È uma espécie de montanha mais alta que a saudade, as memórias ajudam a escalada, aquecem as mãos enquanto subimos.
Mas o regresso é sempre um inicio, uma aceitação forçada de que parte de nós também partiu e nunca mais nada será igual.



 

   



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