segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

A maçaneta.


Houve dias em que chegavam os cinco ao mesmo tempo, todos a quererem furar o tempo e ser o primeiro a entrar em casa, a maçaneta ficava atordoada de tanto movimento.
Todos os dias de manhã durante anos e anos segurava sacos de pano primeiro com vinte pães, depois quando dois dos filhos foram trabalhar para Lisboa passaram a 10, até que D. Joaquina deixou de conseguir empurrar as suas pernas cansadas e a mãe passou a ir á padaria do Sr Florêncio, primo afastado da tia Ana, na esquina da Rua Azul.
Há dois anos que a casa está em ruínas, as ultimas mãos conhecidas a acariciarem a maçaneta que toda a vida os acompanhou em silêncio, foram as da mãe. Os dedos com atroses agarravam-na e aconchegavam-na enquanto olhava a rua como que a despedir-se.

Lembrou-se do dia em que o pai os deixou, mala na mão direita, abriu a porta decidido e fechou-a lentamente enquanto a sua mão pousava nostalgicavamente naquela peça que tanto usara, entre risos e discussões, com filhos ao colo e compras na outra mão...
Foi ele que lho disse quando ela adoeceu:
-Sabes Antónia, no dia em que saí de casa, lembei-me de quando escolheste a maçaneta da porta, depois de tanta procura, de nada servir, disseste , é esta! E senti que ela reprovava a minha saída, uma espécie de choque fininho percorreu o meu braço, como se fosse o seu vibrar a dizer, eu fico!
Eu cuido dela!
       


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