quarta-feira, 28 de novembro de 2012

O gato.


Ana olhava o seu gato como que á espera da sua reacção. Tinha provado  um bocadinho do leite que estava no prato dele.
Ele, com maturidade, olhava o prato quase vazio.
Acabou por lhe dar uma lambidela e lembra-se de ter pensado: Criancices !

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Amigos?

Para sempre!



As janelas.

No prédio em frente vivia uma velhinhe cheia de artroses. Depois do almoço e nos dias em que o sol aquecia as vidraças da sua janela, ficava enconstada, a olhar o movimento, as gargalhadas, os esgares de dores das bailarinas em frente.
Quando a tarde caía, Alice, a dos totós, atirava-lhe beijos e sorrisos.

Olhou para a mesinha redonda e viu na jarra o ramo de rosas secas, com o laço amarelo a resistir ao tempo, foi ela Alice, que numa semana em que não saiu da cama, deve ter sentido  a sua falta e   perguntou no prédio onde poderia encontrar uma senhora velhinha, de cabelo curtinho e branco e um gato malhado muito gorducho.

- Para si!
Disse num sorrriso cheio de sol.
- Já tinha saudades...  


Deixem-me ouvir o silêncio.





terça-feira, 13 de novembro de 2012

Frágil, demasiado frágil...

 


Parece de uma estabilidade perfeita a fotografia! 

Parece como tudo parece qualquer coisa.

Mais uma vez me confrontei com a fragilidade das coisas, e do que faz mover o cérebro humano em particular.
Do meio dia ás nove da noite, pude observar na urgência de psiquiatria , não interessa de que hospital, como de repente podemos perdermo-nos de nós próprios, não nos reconhecermos, como se num ápice, demónios interiores nos dominassem a razão e tomassem a nossa vida de assalto.

Observava e não conseguia deixar de pensar que poderia ser eu.

Um rapaz alto de vinte e muito poucos anos, magro, trazia até as cadeiras amarelas do hospital lembranças de África que despontavam da sua carapinha, das sua pestanas  enormes e curvadas, da sua pose de descanso numa savana de cimento e paredes carregadas de histórias.
De auscultadores nos ouvidos, o fio pendia ao longo das pernas deixando-me a pensar que, ou a música surgia como por magia na sua cabeça, ou os auscultadores serviam para se distanciar ainda mais de tudo o que o cercava.
Mãe é mãe em qualquer raça, religião ou tonalidade de pele. E em pleno centro da ciência ocidental, novo vislumbre do continente africano, quando com todo o amor e certa de que a ouviriam, segurou na cabeça do seu filho e começou a exorcizar peremptória todos os demónios que o atormentavam.

 Era como se fosse tirando pensativa, pétala por pétala a um mal- me-quer..

Depois chegou a velhinha que ia pela nacional nr. 1, a pé para o Seixal, foi a neta que a encontrou. Quase a seguir chegaram dois filhos, o mais novo com ar meigo disfarçado atrás de um boné de pala ameaçadora, trazendo a mãe que os abraçava e lhes dava muitos beijos, mas se encontrava aprisionada num desespero tão escuro que deixava de ver os filhos e procurava pôr fim a uma vida que se tornara demasiado pesada.
Mais tarde veio o preso, rodeado de três policias, que pôs tudo em prevenção porque ia para a casa dos segredos...
O casal com a mulher aos gritos, tira-me daqui, tira-me daqui e ele de cara encostada á dela, tem calma mulher, tem calma...
  
Eu, ao canto a observar...
Humano, demasiado humano, dizia Nietzsche.
Frágil, demasiado frágil, pensei eu. 



segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Who knows where the time goes - Eva Cassidy


A avó.

Cúmplices, os seus passeios eram eternos.
Todas as pedras do caminho lhes sorriam, entre um ou outro degrau, ás vezes surgiam  perguntas que a avó respondia pausadamente ao ritmo do seu passo arrastado. De cada uma, nasciam histórias que as embalavam até casa. 
Tiravam a roupa de sair, vestiam a de andar por casa e quando dava por si já estava rodeada de um cheiroso chá preto e um pequeno prato cheio de fatias de bolo fininhas,  e lá  continuavam as duas as suas  intermináveis conversas.





A familia.