terça-feira, 29 de maio de 2012

A magia da digitalização.


Digitalizei fotografias antigas.
Enquanto as escolhia olhava para momentos de um passado distante, que por arte e magia de um inventor, através de um clic,  permitiu que qualquer pessoa que tivesse uma  máquina fotografica, conseguisse dar prisão perpétua a estados de alma inseridos em cenários,  numa espécie de papel especial, papel de fotografia.

O sentimento nessas alturas era predominante nostálgico.

Com a digitalização fiquei incrédula!
O manusear das imagens no computador, a nitidez das mesmas, deixou-me estupefacta a olhar para tudo como pela primeira vez.
Parecia assombrosamente tão presente, real, à distancia de um telefonema ou email.
Lembrei-me da teoria dos mundos paralelos... Eu, neste momento, estaria neste mundo.

Num outro, paralelo, viveriam ainda como tal, a criança que neste já não existe e que está ao colo do seu pai.

Existiria ainda a casa e a fazenda.
O jardim e as flores. 
A árvore de sumaúma  imensa, de porte gigantesco, longe  ainda de  ameaçar os muros do jardim, a cobrir-se de "neve" todos os anos e abnegadamente a dar-nos o "algodão" novo para almofadas fofas, que convidavam a sonhos felizes.
O chão de calhaus com desenhos por onde corriam lagartixas preguiçosas e onde dedos de crianças contavam os calhaus brancos, nas horas em que as brincadeiras eram interditas.  
O meu irmão a chuchar no dedo. A Mariazinha nos seus eternos suspiros dirigidos ao céu.
O cheiro do laranjal.
As mangas doces e enrugadas.
As tias, os primos, as missas, as procissões.

Eu e o meu irmão de mão dada, pela manhã,  até ao ponto de encontro para o deixar na camioneta do colégio.  
O mar infinito a contornar  a nossa vida, sempre ao nosso lado nas viagens de Cãmara de Lobos        para o Funchal e de regresso a casa.

A minha mãe, que de Coimbra trouxe para a ilha, uma liberdade de pensamento e de estar que chocava os mais puritanos e beatos...

Continua lá tudo. 

Até voltarmos todos a partilhar um mesmo universo.

Provavelmente o infinito. 


  

sábado, 26 de maio de 2012

As glicinias sempre tiveram em mim um efeito pacificador.
A cor, o cheiro suave, a cor novamente.
O mundo é lindo.
A vida é boa.
Não há ninguem infeliz.

Tudo porque as glicinias sempre tiveram em mim um efeito pacificador.  





Agarrar a Lua.


segunda-feira, 21 de maio de 2012

COLDPLAY- Maio de 2012 Estádio do Dragão


"In My Place"
In my place, in my place
Were lines that I couldn't change
I was lost, oh yeah

I was lost, I was lost
Crossed lines I shouldn't have crossed
I was lost, oh yeah

Yeah, how long must you wait for him?
Yeah, how long must you pay for him?
Yeah, how long must you wait for him?

I was scared, I was scared
Tired and underprepared
But I wait for you

If you go, if you go
Leaving me down here on my own
Well I wait for you

Yeah, how long must you wait for him?
Yeah, how long must you pay for him?
Yeah, how long must you wait for him?

Please, please, please
Come on and sing to me
To me, me

Come on and sing it out, out, out
Come on and sing it now, now, now
Come on and sing it

In my place, in my place
Were lines that I couldn't change
I was lost, oh yeah
Oh yeah

domingo, 6 de maio de 2012

Fado

Como é triste o ver-te à minha beira
Sem um gesto sequer
Deixar correr o tempo desta inútil maneira
Cigana, como as ciganas da feira,
Que fazem o destino a um qualquer...

Tu, que não foste minha companheira,
Não te podes negar, porque és mulher...
Não coras, meu amor, porque és trigueira,
Não mentes, meu amor, porque era asneira
Mentir, só por mentir, a quem te quer.

Agora que a verdade já vai alta
Não venhas à janela quando eu vou.
Verdade, meu amor, fazes-me falta...
Mentira , meu amor : Tudo passou...

Ajuda-me a esquecer-te quando minto
E finjo que não vejo, quando vi...
Verdade, meu amor : ainda sinto...
Mentira, meu amor : nunca senti...

Ajuda-me a esquecer-te, quando tento,
Passar aonde moras sem te ver.
Verdade, meu amor : é um tormento...
Mentira , meu amor : hei-de esquecer...

De resto o que te importa o ver-me ou não?
Saber ou não saber que ainda existo?
Verdade meu amor ; sei a razão...
Mentira , meu amor ; não me tens visto...

Não queiras impedir que a tua graça
Se meta entre nós dois, como um rival.
Verdade, meu amor : o tempo passa...
Mentira, meu amor : mas não faz mal...
        
Beijar-te quem pudera, mesmo agora...
Agora que o passado nos aquece...
Verdade, meu amor : a qualquer hora...
Mentira, meu amor : não me apetece ...

Respeito o teu instinto, o nosso acaso
E penso numa sina de enganar...
Verdade, meu amor : já não me caso...
Mentira, meu amor : vou-me casar...

Tolice, o que te escrevo...Deixa lá.
À mesa do café não tenho ideias.
Verdade, meu amor : porque és tão má?
Mentira, meu amor : porque me odeias?

Às vezes, muitas vezes, não me iludo,  
E sei que é o meu destino que te encontra.
Verdade, meu amor : vejo-te em tudo...
Mentira, meu amor : vês-me na montra...

Mas fugo se te vejo algures, sozinha,
E quero convencer-me : "Tanto faz..."
Verdade, meu amor :  hás-de ser minha ...
Mentira, meu amor : Nunca o serás...

........

Sou teu, bem o pressinto, bem o vejo...
Quer queira , quer não queira é sempre igual...
Verdade, meu amor : vou dar-te um beijo...
Mentira, meu amor : mas não vou tal...

A.
Coimbra, 15 de Fevereiro, 1953

( para a minha mãe )

Dia da mãe.



Hoje é o dia da mãe.
Já foi o dia 8 de Dezembro, mas a modernidade achou que as mães mereciam o dia 6 de Maio.

Felizmente que já levo mais de meio século de mundo.A morte nunca me assustou, aliás gosto de me deitar e levantar sempre a pensar que pode ser o último dia que cá estou. Sem melodramas, valorizo as coisas que tenho, rectifico os mal-entendidos, olho para tudo como que a fotografar para mais "tarde" recordar.

Acho que caminhamos, ou melhor deixamo-nos levar por uma máquina desenfreada de marketing, que por estatísticas e estudos de mercado chegaram á conclusão que a população mundial, caminha a passos largos para a senilidade e o esquecimento.

Explicando.
O ser humano, actualmente, mostra o seu lado mais humanista comemorando dias.
É o do pai
É o da mulher ( deduz-se que o do homem são os 365 dias do ano)
É o da criança
É o dia dos namorados....
Há dias para tudo.

Engraçado é que nunca estivemos tão pobres.

Hoje, dia da mãe, eu que sou filha e sou mãe, só queria abraçar todos aquele(a)s a quem, de algum modo, este dia remexe com feridas antigas e profundas.
Todos aqueles que pelos mais diversos motivos, infelizmente podem ser tantos, não têm ou nunca souberam quem foi a sua mãe.

Com tanta propaganda, com tanta loja de montra, com tanta reportagem dos meios de comunicação, com tantos amigos a celebrar, só podem sentir o seu vazio a crescer desmesuradamente.

Ninguém tem o direito de amarfanhar a alma do seu semelhante, mas é o que todos nós fazemos ao comemorarmos os  dias disto e daquilo. È que há sempre alguém, a quem falta o que se comemora.

Estamos melhores pessoas?

Para mim, definitivamente que não.





sábado, 5 de maio de 2012

Civilização - Niall Ferguson

Estou a achar o livro muito interessante.
Logo nas primeiras páginas há uma referência ao estado da educação no mundo Ocidental:


"... Durante os últimos trinta anos, incutiram aos jovens das escolas e universidades ocidentais a ideia de uma educação liberal sem a substância do conhecimento histórico. Ensinaram-lhes "módulos" isolados, não lhes ensinaram narrativas e muito menos cronologias. Foram treinados na análise de fórmulas de excertos documentais e não na competência-chave de ler muito, de forma generalista e depressa.Foram encorajados a sentir empatia pelos centuriões romanos imaginados ou pelas vítimas do holocausto, mas não a escrever ensaios sobre os "porquês" e os "comos" das respectivas condições.Na peça A Turma de História, Alan Bennet colocou um "trilema": a história deve ser ensinada como uma técnica de argumentação contrária, como uma comunhão com a Verdade e a Beleza do passado, ou simplesmente como "umas merdas a seguir ás outras"? Bennet desconhecia manifestamente que os estudantes liceais de hoje não beneficiam de nenhuma destas alternativas; na melhor das hipóteses ensinam-lhes meia dúzia de "merdas" sem uma ordem cronológica aparente."

"Não existe futuro,existem futuros....mas só existe um passado.
 
"Se tivéssemos podido circum-navegar o globo no ano de 1914, teríamos ficado provavelmente bastante  impressionados com a qualidade de vida das civilizações orientais .A Cidade Proibida estava em construção na Beijing ming e tinham sido iniciados os trabalhos de reabertura e alargamento do Grande Canal; no Próximo Oriente, os Otomanos aproximavam-se de Constantinopla, que conquistaram finalmente em 1453. O Império Bizantino estava prestes a dar o seu último suspiro, A morte do senhor da guerra Timur ( Tamerlão) , em 1405, eliminara a ameaça recorrente de invasão das hordas mortíferas  da Ásia Central - a antítese da civilização.Para o imperador chinês , Yongle, e para o sultão otomano, Murad II, o futuro afigurava-se luminoso.  
Em contraste, em 1411, a Europa Ocidental ter-nos-ia parecido um pardieiro miserável, a convalescer das devastações da Peste Negra- que reduziria a população em metade na sua progressão para leste, entre 1347 e 1351-,afectada pelo mau saneamento e por guerras aparentemente incessantes. Em Inglaterra.  o trono era ocupado pelo leproso Henrique IV, que derrubara e assassinara o infortunado Ricardo II. A França estava a braços com guerras intestinas entre os partidários do Duque de Borgonha e os do duque de Orleães, que fora assassinado.A Guerra dos Cem Anos , entre a França e a Inglaterra, estava prestes a ganhar novo fôlego.Os outros reinos quezilentos da Europa Ocidental -Aragão, Castela, Navarra Portugal e Escócia, não teriam um aspecto muito melhor.  Granada era ainda governada por um muçulmano.O rei escocês Jaime I , fora capturado por piratas ingleses e estava cativo em Inglaterra.As partes mais prósperas da Europa eram as cidades-estado  do Norte de Itália:Florença, Génova, Pisa, Siena e Veneza...

No fim da nossa excursão mundial, a noção de que o Ocidente poderia vir a dominar os Outros durante o próximo meio milénio teria parecido completamente fantasiosa.
Mas foi o que aconteceu.
Por alguma razão, começando em finais do séc. XV, os pequenos Estados  da Europa Ocidental, com as suas influências abastardadas do latim( e um pouco de grego), com a sua religião derivada dos ensinamentos de um judeu de Nazaré e a  sua dívida intelectual para com a matemática, a astronomia e a tecnologia orientais, produziram uma civilização capaz não só de conquistar os grandes impérios asiáticos  e de subjugar África, as América e a Australásia, mas também de converter povos de todo o mundo ao modo de vida ocidental- uma conversação realizada mais com a palavra do que com a espada."

"... Em 1500, as futuras potências imperiais da Europa detinham 10% da superfície terrestre do globo e , no máximo, 16% da sua população."