Enquanto as escolhia olhava para momentos de um passado distante, que por arte e magia de um inventor, através de um clic, permitiu que qualquer pessoa que tivesse uma máquina fotografica, conseguisse dar prisão perpétua a estados de alma inseridos em cenários, numa espécie de papel especial, papel de fotografia.
O sentimento nessas alturas era predominante nostálgico.
Com a digitalização fiquei incrédula!
O manusear das imagens no computador, a nitidez das mesmas, deixou-me estupefacta a olhar para tudo como pela primeira vez.
Parecia assombrosamente tão presente, real, à distancia de um telefonema ou email.
Lembrei-me da teoria dos mundos paralelos... Eu, neste momento, estaria neste mundo.
Num outro, paralelo, viveriam ainda como tal, a criança que neste já não existe e que está ao colo do seu pai.
Existiria ainda a casa e a fazenda.
O jardim e as flores.
A árvore de sumaúma imensa, de porte gigantesco, longe ainda de ameaçar os muros do jardim, a cobrir-se de "neve" todos os anos e abnegadamente a dar-nos o "algodão" novo para almofadas fofas, que convidavam a sonhos felizes.
O chão de calhaus com desenhos por onde corriam lagartixas preguiçosas e onde dedos de crianças contavam os calhaus brancos, nas horas em que as brincadeiras eram interditas.
O meu irmão a chuchar no dedo. A Mariazinha nos seus eternos suspiros dirigidos ao céu.
O cheiro do laranjal.
As mangas doces e enrugadas.
As tias, os primos, as missas, as procissões.
Eu e o meu irmão de mão dada, pela manhã, até ao ponto de encontro para o deixar na camioneta do colégio.
O mar infinito a contornar a nossa vida, sempre ao nosso lado nas viagens de Cãmara de Lobos para o Funchal e de regresso a casa.
A minha mãe, que de Coimbra trouxe para a ilha, uma liberdade de pensamento e de estar que chocava os mais puritanos e beatos...
Continua lá tudo.
Até voltarmos todos a partilhar um mesmo universo.
Provavelmente o infinito.


