sexta-feira, 27 de abril de 2012

Sofia.


Vejo-a diariamente, trocamos músicas, postais, pensamentos.

Nunca falamos, nem a conheço pessoalmente.

Trinta e poucos ( muito poucos) anos, independente, criativa, amante de tudo o que tem um toque de arte.

Algo aconteceu na sua infância, doloroso provavelmente, e que ainda hoje não entendeu, não perdoou.

Talvez por isso arraste uma dor, uma descrença, um medo de entrega, que usa como escudo protector dos seus sentimentos.
 Talvez qualquer coisa que não entendeu referente à figura materna...

Talvez.

 É de certeza uma mulher que já foi amada por alguns homens na sua vida, ás vezes penso , que foi (é) profunda e verdadeiramente amada.

O problema é que o medo, não a deixa sentir, não lhe dá a liberdade da reciprocidade, tolhe o seu coração, o seu corpo encolhe-se e ela segue em frente vazia, aparentando uma segurança altiva.

  A sua sombra fica para  trás e tenta consertar todo o desarranjo...

 Infelizmente a sua sombra é invisível .

Sofia poderá ser assim, ou eventualmente completamente diferente da descrição.

Sei, isso sei, e não me perguntem porquê, que tem um grande coração!

( a uma amiga do FB)








quinta-feira, 26 de abril de 2012

Mia Couto. "[...]Devia era, logo de manhã, passar um sonho pelo rosto. É isso que impede o tempo e atrasa a ruga.[...]


É incrível como vejo muitas vezes a minha alma reflectida em muitas das coisas que leio.
Quase que não preciso de falar, ou escrever.


 Muda, uso as palavras dos outros, daqueles que me leram por dentro, daqueles que ao levarem os meus olhos nas pistas das palavras que produzem, dizem tudo o que penso, descobri que penso, e passei a pensar...


Quando, há mais de uma dezena de anos, descobri Mia Couto, fascinou-me a forma como deu vida a uma língua séria e pesada, cheia de becos e avenidas para chegar a um sentimento, para descrever um estado de alma.
Tornou o português criança, inocente, jovial e prático, deu-lhe leveza, encheu-o de encantos e de sol, muito sol.


Acho, que a maior parte dos portugueses se acha não racista.


Acho, mas não concordo.


É vê-los estupidamente a imitar um angolano, guineense, ou moçambicano, logo seguido de uma anedota igualmente estúpida.
Compreendo o que devem sentir.


 Sou madeirense e, quando o digo, há sempre um ou outro engraçadinho que imita o sotaque, sem perceber a figura que parvo de faz. 
   
Deve correr no meu sangue, sangue de algum escravo africano que passou pela ilha, acalento essa hipótese como um tesouro. Deve ser ela que me leva a interrogar o porque da dimensão planetária dos horrores do Holocausto ?


Claro que foi terrível, dolorosamente horrível.


E os séculos de escravatura?As torturas? Todo o horror que rodeia séculos de abusos baseados na lei do mais forte, da besta dura e sanguinária que infligia horrores ao seu semelhante.


Parece-me, poderei estar enganada, não ter  havido o mesmo tratamento. Digo parece-me, por delicadeza. Ainda hoje se fala do ouro roubado aos judeus, quantos estudos e tratados...
A dor  de um escravo não tem quilates, a humilhação não é moeda de troca, um ser humano escravo incomoda os corações mais frágeis, mas não está cotado em bolsa!



Estou à vontade, porque no meu sangue confluem judeus pelo lado ( muito querido ) do meu avô Benjamim de Sto. Varão, Formoselha (Montemor-o-Velho) , árabe pelo lado do meu avô  paterno ( madeirense). 


A parte escrava, que parece  ainda viva, acho que vem de algum ancestral da minha avó paterna, ( madeirense) acho, e quero achar sempre.




Fecho os olhos, deixo as palavras de  Mia Couto surpreenderem-me, eternamente :




" A morte é como o umbigo: o quanto nela existe é a sua cicatriz, a lembrança de uma anterior existência." 


" Morto amado nunca mais para de morrer"


 " É que em todo o lado, mesmo no invisível, há uma porta. Longe ou perto, não somos donos mas simples convidados. A vida, por respeito, requer constante licença."   


 " Seu olhar parece mais um modo de escutar."      


" Vantagem de pobre é saber esperar. Esperar sem dor. Porque é espera sem esperança." 


" O importante não é a casa onde nós moramos. Mas onde em nós a casa mora "


" - Em velho , é o que mais tememos : a queda! 
Não é a queda no escuro da cova. Mas o cair no próprio passo, como se o osso já obedecesse à convocatória do chão."

 in UM RIO CHAMADO TEMPO, UMA CASA CHAMADA TERRA







quarta-feira, 25 de abril de 2012

De que material fomos feitos?


O Amor não Rende Juros.


137 
É verdade «que um baixo amor os fortes enfraquece» 
mas também o grande amor torna ridículos os grandes, 
pois o amor é, em energia material sobre o mundo, um roubo — apesar de, em sensações, ser magnífico. 0 amor será útil internamente, 
mas externamente não carrega um tijolo. 
Disso nunca tive dúvidas. 
138 
A vida, é certo, não será um sítio excepcional para as paixões. 
Nos países humanos, o amor mistura-se muito 
com palavras equívocas. 
0 fogo que existe numa lareira, por exemplo, 
é um fogo servil, cultural, educado. 
Uma coisa vermelha, mas mansa, 
que nos obedece. 
Só é natureza, o fogo na lareira, 
quando, vingando-se, provoca um incêndio. 
E o amor assim funciona. Mas é preferível o contrário. 

139 
É desarranjo de estratégias e planos, 
surpresa ritmada, uma ilegalidade exaltante que não prejudica 
os vizinhos. 
Mas atenção, de novo: o amor não faz bem aos países, 
não desenvolve as suas indústrias, nem a economia. 
Disso nunca tive dúvidas. E por isso é preferível não. 

140 
No entanto, qual é o país que pode impedir que o amor 
entre? Não é mercadoria traficada em caixas, 
que as caixas são objectos que se abrem ao meio 
— e é possivel, com uma lanterna, olhar lá para dentro. 

141 
0 amor não se vê como 
se fosse uma presença. 
É demasiado completo 
para ter uma forma. E como jamais 
se conseguiram obter juros de uma coisa 
que não ocupa espaço, é preferível não, 
parece-me. 

Gonçalo M. Tavares, in "Uma Viagem à Índia"


Sentes, Pensas e Sabes que Pensas e Sentes






Dizes-me: tu és mais alguma cousa 
Que uma pedra ou uma planta. 
Dizes-me: sentes, pensas e sabes 
Que pensas e sentes. 
Então as pedras escrevem versos? 
Então as plantas têm idéias sobre o mundo? 

Sim: há diferença. 
Mas não é a diferença que encontras; 
Porque o ter consciência não me obriga a ter teorias sobre as cousas: 
Só me obriga a ser consciente. 

Se sou mais que uma pedra ou uma planta? Não sei. 
Sou diferente. Não sei o que é mais ou menos. 

Ter consciência é mais que ter cor? 
Pode ser e pode não ser. 
Sei que é diferente apenas. 
Ninguém pode provar que é mais que só diferente. 

Sei que a pedra é a real, e que a planta existe. 
Sei isto porque elas existem. 
Sei isto porque os meus sentidos mo mostram. 
Sei que sou real também. 
Sei isto porque os meus sentidos mo mostram, 
Embora com menos clareza que me mostram a pedra e a planta.
Não sei mais nada. 

Sim, escrevo versos, e a pedra não escreve versos. 
Sim, faço idéias sobre o mundo, e a planta nenhumas. 
Mas é que as pedras não são poetas, são pedras; 
E as plantas são plantas só, e não pensadores. 
Tanto posso dizer que sou superior a elas por isto, 

Como que sou inferior. 
Mas não digo isso: digo da pedra, "é uma pedra", 
Digo da planta, "é uma planta", 
Digo de mim, "sou eu". 
E não digo mais nada. Que mais há a dizer? 

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos" 
Heterónimo de Fernando Pessoa


sábado, 21 de abril de 2012

Leonard Cohen


Devo a descoberta a uma amiga do FB. Benditas partilhas!

Sempre gostei da sua música, das letras feitas de poesia pura, dos ritmos dos diversos sentimentos humanos.
Sempre gostei, e cada vez gosto mais.
O seu discurso de agradecimento por ter ganho o Prémio Príncipe das Astúrias, é uma obra de arte.
Para quem por aqui passar, aproveitem.
Ficamos todos melhores seres humanos.



sábado, 14 de abril de 2012

João Ricardo Pedro - Premio Leya 2011

Fiquei curiosa assim que ouvi falar no vencedor deste prémio: mais uma das vitimas do famoso "mercado" que oferece tempo a quem não o pediu e não tem sequer forma de recusar.
A curiosidade deixou-me na expectativa e cá estou eu a lê-lo....
Para mim de inicio e nas descrições rurais havia qualquer coisa da minha infância, e das histórias que a minha avó me contava, réplicas perfeitas das obras de Júlio Dinis, como mais tarde ao lê-lo descobri.

Depois è emoção a cada capitulo, a realidade das palavras, como pedras duras, misturadas com fragilidades humanas, com gestos e acções absurdas.

"...Mas entre os excessos do Larau e as apreensões do padre Alberto, ninguém sabia com clareza o que se estava a passar em Lisboa, nem a situação em que se encontrava Marcello Caetano.
E, nesse território de dúvidas, lançavam-se para a mesa os mais curiosos palpites: que tinha sido assassinado logo ás primeiras horas da madrugada; que já estava morto havia vários dias; que já tinha dado à sola e todo aquele escarcéu no Largo do Carmo era pura encenação; que os revoltosos não sabiam o que fazer com o corpo, era sempre assim, tudo tratadinho, tudo a correr como o previsto e, depois vai-se a ver ninguém sabe o que fazer com o corpo, se exibi-lo em praça pública, se deita-lo discretamente ao Tejo, atado a correntes de ferrro e pesos de chumbo , se queimá-lo numa fogueira, na Praça do Comércio, uma encrenca, era o que era; que tudo não passava de bluff  do próprio Marcello Caetano, na esperança de que o povo saísse para a rua para o salvar; que, àquela hora já o Marcelinho estava a beber refrescos de groselha no Sul de Espanha, com os olhos voltados para Alcácer Quibir; que tudo dependia de quem estivesse por detrás disto, que eram soldados, que muito bem, parece que são soldados.<<Mas se os nossos soldados>>, dizia o Fangaias e com certa razão,<<coitadinhos andam por terras do Ultramar a perder pernas, a perder braços, a perder o juízo, como é que de repente aparecem tantos soldados?>> Seriam russos? Americanos? Ingleses?Franceses? E por onde tinham entrado sem ninguém dar por nada?
<<Por mar>>respondia o Bocalinda,<<claro que entraram por mar. O cabrão do mar que sempre foi e será a nossa desgraça.Mas cabe na cabeça de alguém fazer a capital de um país junto ao mar? Vaidades>>. Pág 13 e 14       

"... O avô de Duarte disse:<< Olha-me só aquela varanda, que maravilha.Lá em cima , ainda faço uma biblioteca.Ali ao fundo, um consultório. Não preciso de mais nada, Policarpo, até que a morte me venha buscar. >>
Policarpo nem queria acreditar no que ouvia:<< Precisas, precisas.Precisas de doentes, clientela.E, mesmo que os tivesses, como é que te pagavam?Com alqueires de feijão ou toucinho fumado? Queres ir dar uma volta por aí? Não te passa pela cabeça a miséria.Nunca foram ao médico, amigo.Quando nos virem passar nestas fatiotas, benzem-se como se fôssemos amigos do Diabo.Tem juízo.Biblioteca?Nisso talvez estejas a pensar bem , porque, com o tempo livre que vais ter, podes começar já com o A da Enciclopédia Britânica.>>
Mas o avô de Duarte parecia determinado:<<Chegando ao Porto, dou-te o dinheiro e não se fala mais nisso.>>
E não se falou mais nisso, porque foi feita a escritura, e Policarpo abalou para a bendita Europa, com a promessa de uma carta por ano.Todos os meses de agosto.Promessa que cumpriu até á morte.


"....Durante muitos anos as cartas de Policarpo foram a janela da qual os avós de Duarte assistiram ao mundo. Da invasão de Paris pelos alemães à salvação da Europa pelas tropas aliadas.Da morte de Estaline  aos golos de Eusébio. Da primeira pegada na Lua ao fim do império britânico.Tudo ele relatou.Ou porque viu, ou porque esteve lá perto, ou porque inclusivamente, desempenhara um papel determinante no desenrolar dos acontecimentos ..."
"...Para a avó de Duarte, aquelas histórias eram de um mundo longínquo, de um mundo ao qual nunca pertencera, de um mundo que tinha dificuldade em perceber.Falarem-lhe de alemães ou de homens com trinta cabeças ia dar ao mesmo.Pisar a Lua era tão irreal como receber a visita dos doze apóstolos num domingo de Páscoa.
Já para o avô, eram histórias de um mundo que ele abandonara.Pág 42 e 43


"... Os cinco militares, completamente encharcados, montaram no jipe: o soldado Jacinto Marta ao volante, o tenente - coronel António de Spínola a seu lado, o furriel António Mendes, o sargento Raul Figueira e o capitão Leandro Carraça no banco de trás.
As bátegas de água fustigavam violentamente, e o caminho de terra parecia, agora,um autêntico rio de lama.O soldado Jacinto Marta apresentava notórias dificuldades em controlar a viatura, e nem a presença   de um dos mais altos graduados de toda a hierarquia militar portuguesa o inibia de interpelar, alternadamente, e com igual devoção, S. Jerónimo, Nossa Senhora da Conceição e a cona da tia Alice.
Por diversas vezes tiveram de se apear, para tentarem perceber por onde continuava o caminho, e quando, finalmente, vislumbraram, no meio de uma clareira, a meia dúzia de casebres que constituía o aquartelamento, o tenente.coronel António de Spínola virou-se para o soldado Jacinto Marta e comunicou-lhe que iria fazer um pedido especial à secção de aprovisionamento para que lhe entregassem três velas.
O soldado Jacinto Marta olhou-o sem entender.
O tenente-coronel António de Spínola soltou uma gargalhada e explicou-lhe que eram para ele acender, em forma de agradecimento, aos seus três protectores:S.Jerónimo, Nossa Senhora da Conceição e a outra,de que, por razões óbvias, ele não se sentia em condições de pronunciar o nome." Pág 68 e 69


Aconselho vivamente. Fez-me bem a leitura. Gosto de surpresas e neste livro há uma mão cheia delas.
  
 

quarta-feira, 11 de abril de 2012

O lado humano das auto-estradas.

Estava farto.
Das aulas, dos alunos, dos colegas.
Das noites de sessões contínuas de filmes e lamentos, na casa do Pedro.
Da falta de paciência para as rotinas diárias.
Estava cada vez mais farto.
Rodopiava à volta da última relação importante que tivera e também isso o fartava.

O que somos quando somos jovens, o que fica de nós quando envelhecemos?

Sabe que atravessou os anos transportando com muito cuidado, para preservar a imagem e os sentimentos associados , a recordação de Emmy,  que conheceu por volta dos 20 anos quando fez um interRail pela Europa.


Tinham tudo.
Juventude, tempo, vontade de descobrir e amar.

Ainda hoje as recordações o fazem sorrir, ainda hoje lhe dá vontade de chorar.
Muitas vezes pensa se ela se lembrará dele como ele se lembra dela.
Estarão nessa altura os dois, sob céus diferentes com os seus pensamentos de mãos dadas? 
Acha que sim.
Tem dias que acha que não.
Aliás tem dias em que acha tudo que não, até a vida.  

Acordou cedo e ficou a olhar para uma mancha amarelada no tecto.
No dia anterior tinha ido buscar o carro à revisão.
Teria a Emmy casado? Teria filhos? Estaria viva?
Pelo menos estaria mais viva do que ele?

Estava um friozinho ameno, o vidro do carro aberto dava liberdade ao cheiro das flores.
As auto-estradas são solitárias pela manhã.
Ultrapassou e sorriu para o condutor do Tir, que lhe devolveu o gesto com uma buzinadela rouca de verdadeiro macho.
 
 Sorriu e começou a assobiar.
O carro devorava quilómetros.
- Hi, Emmy do you remember.....
Algo lhe garantia que não teria que terminar a frase.