sábado, 21 de janeiro de 2012

Cont.


 

Fifty People one question.


 

Duas vozes a falarem do mesmo tema e uma música em sentido oposto.

Tédio

Já perdi a conta dos meses,
Dezembro, Janeiro Maio?

Batem-me à porta por vezes, 
Não saio. Finjo que saio.

Mas regresso à velha mesa,
Por vício, não por enlevo.

Filho da própria incerteza,
Escrevo.Finjo que escrevo.

Que dia é hoje? Sei lá !
O sinal da cruz diz : Mais

E uma hora quando é má
Diz que as outras são iguais.

Pedro Homem de Melo


Não é o tédio a doença do aborrecimento de nada ter que fazer, mas a doença maior de se sentir que não vale a pena fazer nada.

Fernando Pessoa


Receita para fazer um Herói

Tome-se um homem,
Feito de nada, como nós,
E em tamanho natural.
Embeba-se-lhe a carne,
Lentamente,
Duma certeza aguda, irracional,
Intensa como o ódio ou como a fome.
Depois, perto do fim,
Agite-se um pendão,
E toque-se um clarim.

Serve-se morto.

( Reinaldo Ferreira )

Irene no céu.


Poema de Manuel Bandeira:

Irene no céu

Irene preta
Irene boa
Irene sempre de bom humor.


Imagino Irene entrando no céu:
— Licença, meu branco!
E São Pedro bonachão:
— Entra, Irene. Você não precisa pedir licença.

Àgua quase tudo e cloreto de sódio.


A letra é de António Gedeão.

Os sonhos.



As crianças vivem os sonhos.

Os novos sonham para fora.

A  seta indica, mas não condiciona. O tempo está a seu favor, o futuro não tem pressa.

Os velhos sonham para dentro.

Pressentem que a seta indica o lugar definitivo. Querem atrasar a chegada,  enroscam-se dentro das suas lembranças e os seus sonhos imaginados ou vividos,   dão sentido ao presente e tornam-no suportável.

Lembro-me de uma senhora velhinha que todos os dias de manhã saía de casa por volta das onze, magrinha e miúda, num saia e casaco azul escuro, com carteira  e sapato a condizer, espalhava por todos com quem se cruzava um sorriso matreiro, nuns  lábios  sem idade e meticulosamente  bem pintados de vermelho vivo.  

Deixei de a ver.
Provavelmente sem medo, olhou para a seta e com o seu sorriso de diva seguiu a sua direcção...

sábado, 7 de janeiro de 2012

Um sábado diferente.

Hoje foi um sábado de passeio com a minha melhor amiga.

Para além da minha rotina levar um abanão, andamos a tratar de assuntos necessários e entre uma loja e outra, naquele entra e sai, íamos falando como sempre de tudo e de nada em particular e rindo dos nossos esquecimentos, da nossa falta de orientação enfim, o normal sempre que estamos juntas.

O caricato surge quando já estafadas chegamos a minha casa e já não sei porque motivo acedi ao facebook.

Ficou atónita com o meu número de amigos.
Que não podia  ser, tinhamos que alterar aquilo, não tinha que ter medo.
Em segundos começo a pedir amizade a pessoas que não conheço, mas sobre as quais ela já tem uma  boa opinião formada pelo que publicam, pelo que comentam, enfim pessoas interessantes e com as quais aprendemos sempre coisas novas.  

Não adiantavam os meus receios:
- Mas a que propósito? Dizia meio a medo.
Pede não tem problema nenhum!..

Até que vindo do ciberespaço, aparece uma mensagem a querer confirmar se eu não estaria a pedir amizade a pessoas que não conhecia de lado nenhum e a avisar que, só o deveria fazer àquelas pessoas, que tinha a certeza conhecer.

Amiga como a minha não se fica.

Que é isto ??? Vamos tentar outra vez porque isto não pode ser , é ridículo!!!

A cada novo pedido de amizade, a mensagem  aparecia.
Até que saiu mesmo a sentença:
Dois dias de castigo sem poder pedir amizade a mais ninguém.

Amiga como a minha continua sem se render.

Já em sua casa vi no seu mural  o comentário sobre a situação. Mereceu dos seus amigos explicações e comentários.

Amiga como a minha , só podia rematar com uma frase:

- Azar do FB!


Nota: Em poucas horas e  só graças a ela, acrescentei 10 novos amigos á minha lista. Estou na verdade mais rica, não por acrescentar um número a uma lista, mas porque num primeiro relance já partilhei coisas muito interessantes.


 

Pó de estrelas.


Fernão Lopes dizia numa das suas crónicas, qualquer coisa muito parecida com isto:

- Nós não somos nados a nós mesmos, metade de nós é pertença da nossa terra, outra da nossa família.
 Os calhaus têm a ver com a pertença à minha ilha. As saudades e as recordações são imensas, como fotografias velhas de tempos que já não existem.
 
Dividida desde os 6 meses de idade entre Coimbra e a Madeira, de Coimbra guardo os sentimentos, o gosto pelos livros, os passeios pela Sereia com o meu avô Benjamim, pelo Botânico e Penedo da Saudade com a minha avó Izolina, as idas à praça, com passagem obrigatória pela igreja de Sta Cruz.
Guardo a sete chaves a ternura dos meus avós, as histórias mirabolantes, os bonecos recortados em papel que ajudavam a dar emoção ao que ia sendo contado. Guardo como o meu maior tesouro, a sensação de me sentir dona do mundo dos meus avós e muito, muito amada.
De regresso à Madeira,as viagens faziam-se de avião (entregue ás hospedeiras que nos davam lápis de cor e cadernos para brincar) ou de navio ,Sta.Maria ; Vera Cruz ; Funchal entregue à minha madrinha ou a alguma freira conhecida que também seguia destino para a ilha.
Lembro-me das chegadas e dos regressos, dos cheiros e dos abraços.
Das malas e dos rodopios que se criavam.

Porquê estas memórias hoje, assim?....

Porque ainda hoje, nos meus ouvidos, para além da beleza dos céus do Funchal com o fogo de artificio a desafiar beleza das estrelas, guardo o som grave dos navios a apitarem e a provocarem em mim sempre a mesma sensação, um arrepio generalizado pelo corpo que terminava sempre com os meus olhos cheios de lágrimas...Vá se lá perceber de que matéria são feitas as crianças!

Pó de estrelas??? Será?