quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Gifts before Christmas.

The Fool on the Hill.

Ainda o Pedro.

Gostava de te ter tido como colega de escola.

Gostava que as nossas idades estivessem trocadas. Tu com dez, onze  anos e  eu dois anos mais nova.

Eu chamava-me Inês e tu, apenas por coincidência cromática, mantinhas o nome de Pedro.
Eu vivia no andar por baixo do teu e a minha mãe tinha combinado com a tua, seres tu a levar-me para a escola e seres responsável por mim.
De manhã, muito antes de tu saíres já eu estava sentada nas escadas, com a pasta pronta, a cara e o cabelo bem penteado, sentada, quietinha à espera de ouvir bater a tua porta e começares a deslizar, com a pasta às costas pelo corrimão.

Nos primeiros tempos quando me vias fazias travagens rápidas, punhas - te de pé, sério e dizias sem esconder o verdadeiro frete que tudo aquilo era: Anda!
      
Saltavas os degraus, saías para a rua e não te preocupavas sequer em saber se eu te seguia ou não. Tinhas a certeza de que vinha, mais ou menos entre corrida e passo, atrás de ti. 
  
Um dia o caminho da escola tomou um rumo diferente. Subimos para um autocarro de dois andares e disseste: Anda!

Nem tive coragem de perguntar pela escola, fui.
Subimos para o andar de cima e logo no primeiro banco, depois da escada, estava um senhor já com alguma idade, com uns óculos de lentes de fundo de garrafa e uma saca de plástico cheia de coisas encostada ao peito. Estava sentado junto à janela, com o nariz quase colado ao vidro.

Anda, dizias sem olhar. Sentamo-nos os dois no banco da frente, com uma imensidão de vidro à nossa volta.
Via as casas todas por dentro, os jardins, os cães, sentia-me poderosa, de tal modo que te perguntei: Pedro onde vamos?

Tu devias estar a viver uma situação idêntica de alegria, porque pela primeira vez, depois de tantos meses, olhamos um para o outro e disseste: Vamos à Foz, vamos ver o mar.

Devo ter ficado com lágrimas nos olhos, tinha medo e ao mesmo tempo não percebia como era possível tudo aquilo estar a ser tão fantástico: Pedro e se nos perdemos? Sabes voltar para casa? 

Soubeste. A partir desse dia partilhamos segredos de pedrinhas que apanhamos no mar, meias molhadas e cheias de areia, corridas para ver quem era o primeiro a desistir.

De repente, ao olhar o horizonte uma imensa laranja gigante dirigia-se lentamente para uma linha muito recta que víamos ao longe no mar.

Sentamo-nos em silêncio. Acho que só voltamos a respirar quando o sol desapareceu e deixou no horizonte uma espuma alaranjada.

Custou a levantar, os olhos ainda estavam cheios de cor de laranja. 

No regresso quando subimos para o segundo andar do autocarro sentamo-nos no primeiro banco que vimos, e foi com o abanar do condutor que acordamos os dois, na Av dos Aliados, sem perceber bem o que tinha acontecido.

A partir daí ficamos os melhores amigos do mundo. Como por magia, nunca mais me disseste: Anda.

No regresso a casa, a subir penosamente a Rua dos Clérigos, disseste suavemente;  vamos Inês, já só falta um bocadinho.       

Ensaios sobre estar vivo. 2º

 Os amigos.

Não sei desenhar, mas se soubesse, pintaria assim o teu  retrato:

Pedro olhava o mar.
Atravessava o jardim , passava pelas pessoas , mas o seu olhar estava direccionado para o azul acinzentado do mar.
Carregava de miúdo tristezas antigas, que escondia entre palhaçadas , frases e gestos largos que ficavam a ecoar pela rua. 
Quando pensava no que viveu, sentia picos de dor na alma, ao recordar coisas de miúdo e adolescente.
Essa dor fazia com que o sofrimento alheio lhe entrasse nos poros.
Palavras brutas, gestos inesperados, levavam com que qualquer pessoa pensasse que ele estaria noutra realidade.
Mas o que ninguém suspeitava, era que Pedro  guardava e vivia em si, todas as realidades.
Passadas, presentes e futuras.
A vida nele, corria como vento suave, ao qual ele seguia sem questionar.  
A solidão sempre espreitou todos os seus recantos de gente, materializou-se vezes sem conta nas perguntas que nunca fez, nas que fez e não queria fazer.    

Nasceram filhos.
Nessa altura o vento era morno e reconfortante, foi por ele que travou pela primeira vez uma luta de "egos" com o vento. Ele empurrava-o para caminhos onde os seus filhos não estariam. 
Fez força.
Resistiu e ganhou.
Um dia emprrramram-no e foi o fio condutor do vento que o agarrou, voltou a deixar-se conduzir.

Normalmente ria alto, com gargalhadas sonoras que abafavam a dor de se sentir gente.
Houve mais uma tentativa de família, à convivência com os seus filhos, juntou o vento outros três da sua nova mulher. Passaram anos de vida familiar, em que o  vento se tornou brisa que percorria a casa e a suas vidas.
Acabou, se bem que nada acaba de verdade, ficam as fotografias mentais de todo o que fizemos, dissemos, omitimos.

Teve mais amores e  outras tantas dores.

Ás vezes, acha, daquele achar que nos amarfanha a alma, que não teve nada disso.
Sabe, isso sabe, que tem saudades da mãe e gosta do mar.
Gostava de estar dentro da sua barriga , aconchegado e protegido.
Gostava, em determinadas alturas , de ter sido um homem grande e forte como um carvalho antigo,  para a proteger.

Mas...era apenas um miúdo, e doí pensar que era apenas um miúdo.
Sabe que gosta do mar !
Ás vezes acha que não gosta de  gente.

E sem o vento nunca desconfiar, guarda ciosamente o seu segredo, vive sempre conduzido por ele , mas a sonhar.
Mal ele sonha agora, que o vento se prepara para o deixar.      

Ensaios sobre estar vivo. 1º

As palavras condicionam -nos. Ou nos libertam para espaços desconhecidos, ou dão cores completamente opostas aos pensamentos. Muitas vezes criam situações constrangedoras, mas a maior parte do tempo parecem ser extraordinariamente livres!
Rodopiam pelo mundo assentes numa vontade própria, criando linguagens que nos transcendem.

Reparo que para muitas pessoas ser banal, ter um trabalho rotineiro, não querer nada de muito particular, nem com muito empenho é quase como estar na vida sem estar.

Como reparo, de que maneira podem estar enganadas, as pessoas que assim pensam!

Cada vez acho mais, que é na simplicidade, seja ela materializada na cara de uma criança a acordar, numa luz suave que entra pela vidraça afastando o mofo da velhice, num gesto de um amigo que está lá sempre para nos aturar...cada vez acho mais, que nestes momentos mágicos que trespassam diariamente a nossa vida, as palavras não são necessárias, aliás só perturbariam o  momento, como birra de criança mimada.

O milagre da palavra é que por si só, implica acção, o idioma comum a cada país, nada é mais que a tradução oral dos seus tiques, usos e costumes.

Como os animais têm movimentos mais parecidos com os nossos, é-nos mais fácil entender a sua linguagem e pressupor o seu comportamento, mas a mim o que me fascina profundamente são as árvores, as flores e todas as plantas de um modo geral.

De que falam elas, como falam elas?
Que dizem os troncos aos ramos, que dizem os ramos ás folhas quando caem e os abandonam?
Os rebentos de folhas e flores na Primavera assustam-se com os primeiros raios de sol? 
Quantas histórias de amor e desamor terá havido entre pássaros e flores , quantos ramos de árvore terão ficado à espera da família de pássaros que há vários anos fazia ninho no seu tronco e num determinado ano não voltou?

Afinal não há vidas banais, vive-se nada mais !

     

sábado, 26 de novembro de 2011

Eva Cassidy.

Prémio Nobel da Mãe.

Sou uma mãe em construção.

Ser mãe é a mais antiga profissão do mundo. 
Prostitutas são filhas de alguém , muitas vezes mães também.
Os prosaicos "clientes" são filhos de alguém, a maior parte das vezes pais também .

Se não houvesse uma mãe, não existiria o mundo  humano e animal tal como o conhecemos.
No mundo actual e ocidental onde nasci, há imensas facilidades.
Tenho uma casa para mim aconchegante, emprego razoável, posso dar-me ao luxo de comprar livros que gosto, música que me encanta, ir ao médico se estiver doente, abrir a torneira e beber água se tiver sede.

Tenho tempo para filosofar com os amigos, para estar em silêncio se me apetecer.
Nada me falta, posso inclusive morrer por excesso!

Sou uma mãe em construção, mas muito, muito privilegiada.
Europeia do sul, tenho praias com sol, mar e calor onde brincar com as crianças, mostrar as conchinhas, apanhar pedras coloridas que o mar  oferece, brincar com os filhos fazendo grinaldas de algas, ou sandálias romanas que cruzam as pernas.

Tive tempo para lhes contar histórias à noite, para cantar e passear de mãos dadas pelas ruas da cidade, por jardins encantados, tivemos, tiveram tempo para crescerem e serem felizes.

Porque a felicidade é sempre passado.
Mesmo num pensamento presente, a partir dessa altura e por esse mesmo motivo já é passado, mas não deixa de ser felicidade.    

Amanhã o Manel faz 20 anos.


Por todas as mães de África e  de todos os cantos do mundo, onde a vida é pesada e densa, como se uma espécie de alcatrão embrulhasse as suas almas, tolhesse os seus movimentos de asas...A todas essas mães, verdadeiras heroínas e estrelas deste mundo, a todas e a cada uma delas entrego o meu coração, a minha alma e a minha mais profunda admiração.

Prémios, são normalmente troca de vaidades.
Ambas as partes se sentem especiais. O que dá, embrulha em discurso uma vaidade institucional, o que recebe, mal consegue esconder a vaidade nas palavras de agradecimento.
 

Para todas as mães a quem tudo falta, inclusive força para se manterem vivas e alimentarem os seus filhos, para todas elas vai o Prémio Nobel da Mãe.

De certeza que não haveria discurso, provavelmente um sorriso suave , que nos torna a todos minúsculos. 



segunda-feira, 21 de novembro de 2011

A vida... A esperança...A inevitabilidade, será?


A excelência.

Nas reuniões de pais do colégio parecia-me sempre que a palavra mais almejada de ouvir por todos, era a famosa frase da Directora, o seu filho/a são excelentes alunos!

Numa escola que busca a excelência e que sobretudo para os alunos que querem entrar para medicina, essa excelência é, a partir do 10º ano, levada muito a sério.

Esqueçam  a vossa adolescência! - diz a directora. Robusta, de cabelo domado por boas doses de laca, olho vivo, ar de controladora, batôm e as unhas vermelhas compõem a solenidade que a ocasião merece.

Sala cheia, encabeçada por uma mesa grande horizontal onde os professores das diversas disciplinas tecem ( na maior parte das vezes ) elogios aos rebentos daqueles pais embevecidos, por tanto 18, 19 e vinte, tanta, mas tanta, excelência Deus meu!!!    

As notas, estão hoje em analogia com a economia, como o crédito, como a dívida, como a burlice de colarinho branco, muito, mas muito inflacionadas.

Chovem dezoitos e dezanoves , como na minha época do liceu eramos corridos a noves e dez.

Tenho dois filhos, nunca faltei a uma reunião.
Normalmente entrava muda e saía calada, só uma vez, quandos quase todos os papás/mamãs das excelências ausentes, atiraram para a fogueira uma professora de filosofia que apanhou a turma no 11º ano, e sem pudor , porque o que interessam os sentimentos perante notas "brilhantes" ??? Repetiram vezes sem conta que os seus filhinhos/as tinham uma empatia muito particular com o professor de filosofia do 10º ano.      
Levantei o dedo para intervir e fui a única a dizer que a minha filha gostava bastante da professora em causa. Sorrimos, ela com os olhos marejados de lágrimas, eu, enjoada de tanta excelência oca.

O melhor que têm os meus filhos?

Tudo aquilo que uma mãe como eu sempre desejou:

Boas recordações de infância.
Corações do tamanho do mundo.
Sonhos de vida onde englobam o bem comum.
Brincadeiras de criança, que tornam os adultos que eles são hoje, em figuras ternurentamente cómicas.

Amanhã a João tem o seu exame da especialidade. Não estou nada preocupada, nem pela excelência, nem pela nota. Quero apenas que termine para ela simplesmente passar a viver... Nem que seja uns meses até começar a trabalhar.

Gosto tanto, mas tanto dos meus filhos e da familia que vai crescendo com os amigos que se tornam tambem como filhos, que só desejo ouvir risos e conversas leves de jovens que têm futuro independentemente de notas, exames, testes.

  


  
     

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

O Outono inventou o Pai Natal.

O Outono inventou a Pai Natal.

Reparem na quantidade de folhas que as árvores oferecem diáriamente.

Para além das folhas, esmeram-se numa infinidade de tonalidades, entre o verde, laranja, amarelo, castanho... E ainda achando pouco, enfeitam estátuas, ruas, casas velhas e sujas.
Quando chove, soltam-se estonteadas pela chuva forte e tornam-se mais pesadas e obedientes.
Com o vento, brincam como crianças a ver quem leva a melhor.
Cobrem as cidades escuras de tapetes coloridos e são de tal forma desprendidas de vaidade, que mesmo   quando pisadas por pessoas aflitas, parecem continuar serenas a sua função.
Dar, colorir, enfeitar.
Desde miúda que todos os Outonos guardo duas ou três folhas em livros.
Com os anos mumificam e tornam-se estaladiças.

A mim aconchegam-me. E todos os dias até as árvores ficarem em troncos nus e escuros, não consigo deixar de as admirar.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Carlos Drummond de Andrade





Por muito tempo achei que a ausência é falta. 
E lastimava, ignorante, a falta. 
Hoje não a lastimo. 
Não há falta na ausência. 
A ausência é um estar em mim. 
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços, 
que rio e danço e invento exclamações alegres, 
porque a ausência, essa ausência assimilada, 
ninguém a rouba mais de mim.



O Porto dos meus afectos.



Dos meus filhos.
Das historias de faz de conta, dos amigos.
O Porto é nome de gente, é humano. Nostálgico nas suas neblinas,  sonhador nos seus anoiteceres de luzes de natal, caseiro nos dias escuros de muita chuva.
Trata todos os que nele vivem como seus filhos, a união é umbilical. 
É tudo muito temperamental, como criança, eternamente criança acaba cansado e adormece ao colo do mar.