domingo, 30 de outubro de 2011

Janela da alma.

Ando na rua com a janela da alma fechada.

Os óculos escuros, bem pretos, filtram os raios de sol e tudo o mais que acontece á minha volta.
Mas a alma que transporto, voa pelos prédios que conheço de cor, coloca como num puzle, antigas casas nos sítios onde já não existem, sorri com ternura para os conhecidos e nesta altura do ano, pelas ruas da baixa do Porto, apanha boleia do fumo das castanhas e serpenteia pelo ar.

domingo, 23 de outubro de 2011

Albert Camus.




A 6 de Novembro de 1984 o meu irmão deu-me um dos livros que mais gostei e que me levou a querer ler tudo o que havia deste autor, "O Avesso e o Direito" seguido de
" Discursos da Suécia".
Esta obra, são ensaios escritos em 1935 e 1936, tinha Camus na altura 22 anos.

".....a miséria impediu-me de crer que tudo está bem debaixo do sol e na história; o sol ensinou-me que a história não é tudo."


Uma das ideias que mais me surpreendeu e reconfortou foi a do poder mágico do sol e do calor, atenuarem o desconforto de uma miséria quase absoluta.

" Encontram-se no mundo muitas injustiças, mas há uma de que não se fala nunca, que é a do clima. De tal injustiça fui por muito tempo, sem o saber, um dos aproveitadores... Quando a pobreza se conjuga  com essa vida sem céu nem esperança que quando cheguei à idade de homem descobri nos horríveis subúrbios das nossas cidades, então a última das injustiças, e a mais revoltante, está consumada:é preciso tudo fazer, com efeito,  para  que esses homens escapem à dupla humilhação da miséria e da fealdade.Nascido pobre, em um bairro de operários, não sabia, contudo, o que era o verdadeiro infortúnio antes de conhecer os nossos arrabaldes frios.Mesmo a extrema miséria árabe não pode comparar-se-lhe, dada a diferença dos climas."     

domingo, 16 de outubro de 2011

Tempos difíceis

Em cada 3, 5 segundos morre um ser humano à fome.

Um... Dois...

"Calcula-se que 815 milhões, em todo o mundo sejam vítimas crónica ou grave de subnutrição, a maior parte das quais  são mulheres e crianças dos países em vias de desenvolvimento."

Porque terei nascido neste lado do mundo? 
Olho para os meus filhos, para a comida diária, para a água sempre pronta a aliviar a sede, para os duches depois de cada banho de mar, ou das caminhadas para manter a forma...
É tudo tão assustadoramente fácil deste lado e precisamente nas coisas que do outro  mais falta fazem.


Tempos difíceis estes



A memória.

A minha memória tem vida própria, muitas vezes foge de mim, outra vezes regressa e não a reconheço.
Começo agora a achar, que graças a ela imensas coisas do meu passado desapareceram e quando em conversas de família ou amigos falam de coisas das quais eu fazia parte, ouça-a a rir baixinho no meu cérebro, quando me ouve dizer:
- O quê ? Não me lembro de nada disso!
  Quando acha que foi longe demais acalma-me com cheiros, sabores e imagens de imensa coisa boa que vivi, sinto-a nessas alturas a lambuzar as minhas bochechas de beijos.
Mantém-se criança irrequieta e traquina, mas extremamente meiga e carente quando tem medo do escuro, quando está cansada e pede colo, ou quando pura e simplesmente tem sono, enrosca-se em mim, põe o dedo na boca e fica a dormir.

 Madeira. Praia de Calhau, o meu pai, os gelados, o musgo nas pedras, os risos e conversas à beira mar.

 Coimbra. A minha avô, os passeios no jardim Botânico, apanhar as folhas e fazer coroas de rei e rainha, os barquinhos de papel   que se punham no lago, as corridas e os cheiros inebriantes de tanta planta em redor.