quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

But for now I just say I love you...



As mães fazem asneiras como o comum dos mortais.


As mães, ás vezes, dizem palavras exactamente opostas aos sentimentos que palpitam no seu coração.

Uma mãe, frente a um seu filho, do qual só tem coisas boas a recordar, pode assolada por um medo irracional, plantar uma pequena semente de dúvida onde sempre imperou a confiança.

O seu coração segreda-lhe serenamente, que não há razões para nada disso, mas as palavras que saem, são palavras de mãe com medo a querer proteger o seu filho, não importa seja criança ou homem feito, de um mundo que está sempre pronto a engolir os bons filhos.

Os filhos que nunca deram motivos para tais atitudes têm todo o direito de ficar desapontados, tristes, cansados.

Só resta à mãe pedir desculpa, arrancar de vez a semente que contamina os sentimentos e ser ela a baixar a cabeça e ficar a pensar nas suas atitudes.

É o que faço de coração puro e braços abertos para um abraço profundo.

Uma prenda, é das músicas que mais gosto dele.



 





O mar ao longe.

Tinha uma vontade de vida que parecia abarcar o mundo.
Tinha sonhos imensos, de tal forma intensos, que não os controlava. Metódico como era, para não se perder no rodopiar da imaginação, enchia agendas de siglas secretas, nomes em código, rabiscos de alfabetos inventados.
A vida chamava por si e os sons dela pareciam preencher todos os cantos. Havia sempre que fazer e qual herói de um filme de aventuras lá estava ele, pronto a avançar, a dar a vida por causas, a procurar de todas as formas integrar-se nos diferentes grupos por onde se movia.

O que buscava nos caminhos da sua alma?
Encontrar o menino que ficava horas a olhar o mar, enquanto a família  andava em correrias de aflição a julga-lo perdido.
Esse menino que dentro de si continuava silenciosamente a olhar o mar. Quieto, muito quieto e a quem ele adulto, procurava fugir sendo o seu oposto.

Vivia no fio da navalha, tal e qual como uma antiga figura de banda desenhada, qual Luky Luke de cigarro no canto da boca, provocador, insolente por vezes, tanto altruísta como tirano.

Mas nos dias em que se esquecia de viver a vida como uma história de faz de conta, sentia-se pequeno, perdido, cansado, Com vontade de que a vida fosse tão simples quanto os escritos a giz num quadro antigo de ardósia, capaz de se apagar tudo com uma esponja e recomeçar de novo.

Talvez precisasse de ter sido filho único, para o ouvirem, para não ter que dividir a mãe com mais seis ou sete.

Talvez tivesse precisado que lhe contassem histórias à noite, aconchegassem a sua roupa e lhe dessem muitos beijinhos, garantindo que aquele quarto era um verdadeiro castelo aonde não entravam " bichos papões".

Talvez precisasse que lhe tivessem dito que era um lindo menino e muito , muito especial, capaz de fazer coisas extraordinárias.  

Talvez....

A liberdade é que em tudo na vida, afinal não precisa de nenhum pedido de desculpas!

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Poesia para aquecer.

A poesia faz-se de sentimentos
Os sentimentos de sensações
As sensações de momentos

E as pessoas,
De onde tudo parte
E cujos fins são indefinidos

Essas, dormem muitas vezes nos cantos mais improváveis da vida.

Sós e encolhidas.

Num silêncio profundo e sem sombras

Embrulham-se em poesia para sentir menos frio.

E sorriem, sorriem, sorriem .

Fevereiro de 2008

A tristeza é húmida.
Nevoeiro baixo que sufoca a alma,
Pensamento dorido que se enrosca sobre si mesmo.

A tristeza é densa.
Mói, corrói e permanece.

Admiravelmente por vezes,

A tristeza reconcilia-nos com as nossas dores.
Põe-nos sorrisos de saudade nos lábios e suspiros de mares nunca trespassados.

E no ruído do calhau que obedientemente segue os caprichos das ondas do mar

Ou

No apagar das pegadas deixadas na areia pela espuma branca

Tudo desaparece.

E das dores, só fica o luar.

NATAL CHIQUE



Percorro o dia, que esmorece
Nas ruas cheias de rumor;
Minha alma vã desaparece
Na muita pressa e pouco amor.



Hoje é Natal. Comprei um anjo,
Dos que anunciam no jornal;
Mas houve um etéreo desarranjo
E o efeito em casa saiu mal.


Valeu-me um príncipe esfarrapado
A quem dão coroas no meio disto,
Um moço doente, desanimado…
Só esse pobre me pareceu Cristo.



Vitorino Nemésio




Tenho saudades de receber cartas, com palavras riscadas e escritas por cima.
Tenho saudades dos postais de Natal e de aniversário, dos movimentos nos postos de correio de antigamente.
Tenho saudades dos selos, alguns tão bonitos  que guardava em caixinhas.
Tenho saudades de não ser tudo tão instantâneo.
A carta tinha um ritual de abertura; Olhávamos a letra, através dela identificávamos o remetente, depois abríamos o envelope  e do nosso estado de espírito dependia  o modo de como o mesmo era aberto, com serenidade forçada, com curiosidade destruidora...
Depois a leitura da carta era como a aventura dum livro, podíamos ler e reler, sonhar ou chorar. E sempre que quiséssemos ...


Guardar, para mais tarde manusear, cheirar , sentir.    




terça-feira, 20 de dezembro de 2011

A história do Natal contada por crianças.




Página 43.

Sentou-se direita, de costas bem encostadas no assento. Já tinha arrumado a pequena mala na grade por cima do seu lugar. Abriu o livro na página 43...
 "Seguiam de mãos dadas alheios a tudo o que os rodeava, estranhamente concentrados em alguma coisa dentro de si próprios,  cada um parecia passear  os seus pensamentos.
Davam-se a conhecer através das mãos, por elas  fluia o suave aconchego da partilha e da cumplicidade.
Em vez de contornarem o jardim, foi através dele, que se dirigiram para o outro lado da praça.
Ouve um olhar em simultâneo, ela sentou-se no velho banco vermelho de ripas de madeira, ele sem largar a sua mão, ficou sentado a seu lado.

Pareciam olhar o lago, o movimento suave dos cisnes, uma criança a quem a avó, transformava pão em migalhas para que a sua neta as pudesse atirar  aos cisnes. Sacudiram tudo até á última migalha, a menina ficou a vê-los afastarem-se para o centro do lago. A avó sorria suavemente como que saboreando um bocado de felicidade."

Fechou o livro usando o dedo médio como marcador e olhou pela janela. Campos verdes fugiam em sentido contrário á passagem do comboio.
Lembrou-se dos passeios que dava com a sua avó pelo Jardim dos Patos, do pão, das migalhas que atirava, ora para perto para melhor ver os cisnes, ora para mais longe, para os ver  deslizar na água.
A pequena gruta com passagem onde ia com o irmão , meio a medo, apanhar os ovos que pareciam gigantes e leva-los para casa.

Sorriu e fechou os olhos para receber o sol em pleno na sua cara.
A cabine de seis lugares estava vazia, podia respirar profundamente.
Nem viu para onde ia o comboio, o único destino era a viagem, a surpresa dos locais de paragem, onde seria o fim da linha?
Uma vila , uma cidade?

Sentiu abrir-se a porta da cabine.
No banco da frente sentaram - se duas pessoas, pelos passos, parecia pelo menos mais do que uma.
Ninguem falou.

Manteve-se de olhos fechados até o sol se cansar e suavemente a deixar.
Não havia o minimo ruído, sabia estar acompanhada, mas niguém falava nem tão pouco desembrulhava com ruído educado, um  rebuçado para levar á boca.
Nada, silêncio e uma temperatura morna deixada pelo sol.

Abriu os olhos devagar, aos poucos foi voltando á cabine.

Olhou disfarçadamente para quem estava sentado á sua frente.
  
Um homem novo absorto nos seus pensamentos repousava suavemente a sua mão no colo de uma jovem rapariga, que a segurava suave mas firmemente. Estranhamente concentrados em alguma coisa dentro de si próprios.
Era pelas mãos que fluia o aconchego da partilha e da cumplicidade.






  

domingo, 11 de dezembro de 2011

Quase Natal...

O dia estava cinzento.Uma chuva miudinha enfeitava árvores, relva, cabelos, com minúsculas bolinhas transparentes. Na rua, alguns seguiam  de guarda-chuva abertos , outros limitavam-se a andar, condensando no cabelo e nas roupas milhares de gotas tão delicadas que não chegavam a molhar.

No meio da multidão,  normal em fins de semana que antecedem o Natal, fixei o meu olhar num guarda-chuva vermelho, segurava-o direita e em passos serenamente precisos uma mulher.
Corpo alto e de formas femininas, fato escuro,contornando a silhueta. De todo o conjunto, a vida tinha sido condensada no guarda-chuva vermelho. 

Observava-a pelas costas, devia ser bonita, porque quando passavam por ela, disfarçadamente voltavam a cabeça numa breve despedida.

Entrou para a estação do metro.
Eu que tinha outros planos  para esse dia, absurdamente abandonei-os a todos e segui-a.
Fechou o chapéu, pude reparar que tinha o cabelo escuro e medianamente comprido.
Sentou-se num dos bancos corridos, encostou o tronco à parede e logo de seguida a cabeça.
Um perfil de estrela de cinema , no auge da fama , caída como por magia no meio de pessoas comuns, numa estação de metro sem nome.

Fechou os olhos e o tempo parou. Algo nela apelava ao respeito por uma solidão, que parecia precisar para viver.
Fiquei de pé, a uma distância razoável para não incomodar , nem  mostrar o interesse que aquela situação me suscitava.  
Imaginei o que poderia estar a passar,  que sentimentos escondiam os seus olhos fechados, um amor perdido, um cansaço em estado puro que torna tudo sem sentido, uma decisão de mudança profunda, um diagnóstico fatal?

Devagarinho aproximei-me, sem ruído, sentei-me na ponta do banco corrido.
Respirava suavemente como uma criança, parecia adormecida.
O guarda - chuva vermelho ali estava, muito perto de mim.

Tossi. Abriu os olhos lentamente, olhou na minha direcção, um verde de oliveira em dias de sol brilhava nos seus olhos, sorriu: 
- Quase Natal!  disse eu a medo.
Voltou a sorrir,  fechou os olhos e com a mão suave de dedos longos, empurrou a guarda-chuva para mim:
- É seu.

Queria fazer ou dizer qualquer coisa, mas tudo parecia a mais.
Levantei -me e segurando o guarda-chuva vermelho dirigi-me à porta de saída do metro.
Parei à saída, tentada a despedir-me com um último olhar.

Não o fiz.

Saí e ao tropeçar num paralelo saído do puzzle da calçada, acordei estremunhada e fiquei largos momentos a olhar para a mão, que deveria segurar o guarda-chuva vermelho.

 
 
   

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Os irmãos.

Francisca nasceu antes do tempo, não muito, mas suficientemente antes para não deixar ninguém à espera.
Característica de que sempre fez uso, nem que fosse para uma simples festa de anos, tinha sempre que chegar uma meia - hora antes,  esperava e à hora marcada lá entrava ela onde quer que fosse, como se tivesse acabado de chegar.

De cabelo muito escuro, logo no primeiro dia levantou diversas vezes o pescoço, parecendo querer fazer o reconhecimento do novo mundo.
Foi embrulhada num amor imenso, primeira neta pelo lado da mãe, primeira filha para um casal de pais babados, pioneira num novo modo de vida para toda a família.

Arrebitada chorou nas primeiras tentativas de entrada para o colégio, passou por três ou quatro, até que escolheu um (deve ter sido, porque deixou de chorar) para onde entrou com quatro anos e saiu com quase toda a turma para o liceu, no 6º ano.
Independente, maria- rapaz, detestava barbies, adorava cães e cavalos, excelente desportista, não parava quieta.
No entanto, se tivesse que estar de pé uma hora a ouvir uma conversa de adultos que não lhe dizia nada, assim o fazia, sem interromper uma única vez a queixar-se de que estava cansada, ou coisa do género.

O irmão João, nasceu quatro anos e meio mais tarde, de parto marcado, cara de rapaz,  levou logo o polegar à boca, só o voltando a tirar por volta dos doze anos.
Alegria e amor aos molhos, numa família maioritariamente feminina.

Andava sempre, mas sempre atrás da sua "Tica" como chamava à irmã.
Coscuvilhava quando já dava os primeiros passos, os seus armários, remexia em todas as suas coisas, o que para a Francisca foi uma lição de paciência e partilha uma vez que, deixou de ter nela todas as atenções concentradas, passando a ser ela muitas vezes, uma verdadeira auxiliar da mãe ao tomar conta do João.

Os pesadelos nocturnos do irmão, que chegava a ter medo que chegasse a noite, foram durante anos colmatados pela companhia da Francisca na sua cama, que já reconhecia o significado de todas as suas formas de respirar.

Aos três anos do João, passam os dois a andar no mesmo colégio.
 Os percursos a pé para a escola ainda hoje são recordados, pelas brincadeiras, pelos jogos das "escondidinhas" da Francisca  nas entradas das portas das casas por onde passavam a caminho de casa.

Com metade do corpo de fora ( foi sempre muito magrinha) a mãe fingia que não a via e enquanto empurrava a cadeirinha onde se sentava um João pachorrento e a chuchar no dedo ( ao contrário da irmã era pequenino e uma bolinha fofa num macacão de ganga) ia dizendo:
- Ai meu Deus, onde estará a minha filha, a minha menina tão adorada? ( voz de desespero, em tom baixo, claro!  )
Então saía a Francisca resplandecente, com os olhos maravilhados por ter conseguido esconder-se sem ninguém dar por nada: - Estou aqui !
E assim continuavam até chegar a casa, com o João refastelado na cadeira de criança , a chuchar no dedo e seguindo com o olhar todas aquelas aventuras de desaparecimentos com aflições e surpreendentes aparecimentos cheios de alegria.

 João transformou-se num rapagão de ombros largos e com mais de 1,80m,  bom desportista, pratica esgrima de competição e gosta de tudo o que é desporto.
Com imensa paciência para ouvir, cria grande empatia com os velhinhos e todos aqueles que, de algum modo parecem mais fracos.
 Francisca que sempre fora no registo dos "percentis", na curva da altura acima da média para a idade e na do peso, abaixo da média para a idade, mantém aos 24 anos um ar de miúda de 17.


Mas ao observa-los ao longe,   há momentos em que pelas suas gargalhadas, pelas suas trocas de olhares ou rabugice, voltam a ser os dois apenas crianças que continuam a brincar.




domingo, 4 de dezembro de 2011

Comfortably Numb


Deixem-me dormir, por favor !

Na era dos livros de auto - ajuda.
Das descobertas tecnológicas que tornam  tudo cada vez mais "nano", porque o minúsculo já passou à história,dos grandes economistas e das suas teorias, que funcionam como os casacos de face dupla, ou seja, dão sempre para usar dos dois lados, caso a análise vá de encontro aos acontecimentos, bem como à sua antítese, encaixam sempre na perfeição.
Até os meteorologistas hoje são mais assertivos ! 
Dos grandes artistas, criativos, estilistas, escritores, cookdesigners....

Numa era de tanta coisa, nunca andamos tão perdidos, tão desiludidos com o que nos tornamos, tão amorfos perante o que nos rodeia.

É tudo hiperbólico.
As antigas lojas de rua personalizadas, deram lugar a espaços gigantescos,como cidades de compras num filme da Disneylândia.
As  mercearias onde íamos ás compras e todos se conheciam e  tratavam pelo nome:

- Senhor Ventura, queria se faz favor 250 gr de café do melhor, para a minha avó.

Primeiro pesava o grão, depois metia-o na máquina prateada onde dava lugar a um pó, que era ensacado em embalagens de papelão ás riscas e perfumavam o meu caminho até casa com um cheirinho de café acabado de moer. Acabaram. 
Acabaram as bolachas Triunfo, maria ou torrada.
Acabou a lixívia Javisol.

Acabaram os glutões do Presto.
O sabão Clarim.
Ou seja, no meu tempo as coisas tinham praticamente todas nome porque eram poucas.
Hoje num hipermercado, há uma infinidade de qualidades de tudo, de tal modo que me sinto perdida e a perder tempo a olhar para tanto desperdício.

Havia mais democracia sem se falar nela.

Antigamente os ricos, apenas em conotação económica,  mandavam as empregadas à mercearia e elas traziam os mesmos produtos que toda a gente levava, os tais com nome!
Hoje não, não há democracia nos produtos de limpeza, nem nas simples bolachinhas para acompanhar um chá.

Depois...
Há os livros de auto ajuda, os pensamentos positivos, as técnicas de respiração para gerir o stress, o coaching para comunicar um despedimento, para gerir situações de conflito laboral ou social.  
Os pais querem que os seus filhos sejam felizes e apoiam-nos a fazer muitas vezes tristes figuras, em concursos para todos os gostos, que hoje proliferam na televisão.
Os progenitores também querem ser felizes e muitos enveredam por danças de casa separa, porque o tempo é curto e há que vive-lo intensamente.


Tanta vida , movida e felicidade cansa.
Chega de tanta  técnica, de tanta teoria. Façam silêncio. Apaguem as luzes.


Deixem-me dormir, por favor!

sábado, 3 de dezembro de 2011

Fomos colegas de liceu.
Diferentes, achava admirável a sua maneira de enfrentar o ar, os dias, as pessoas. Sempre de passo seguro, sem medo de afrontas, dava respostas extraordinariamente desconcertantes, dizia o que pensava e seguia  o seu caminho de cabeça bem levantada; Quem não estivesse bem, que tratasse de se pôr.

Olhos vivos , com  brilho fresco  de uma vida que devia imaginar e desejar fascinante.
Bonita, com uma gargalhada solta e aberta ao mundo.
Como rapariga de liceu, queria mais do que o namorado certinho, daqueles que parecem sair perfeitos da caixa dos namorados perfeitos.
Na faculdade já éramos muito amigas.
Espicaçava as minhas lamurias,  gozava com o meu polidamente correcto.
No essencial,  mantinha-se a mesma miúda do liceu, só que agora ávida de experiências, de troca de ideias, mais dona de si própria.

Um dia em que deveríamos ir ou a vir da faculdade, o destino confundiu-nos.
Em plena Praça da Galiza, existia um Banco chamado Fonsecas e Burnay, disse-me como se fosse a coisa mais natural do mundo: Concorri para este Banco!
Estávamos a estudar Historia e o futuro que construíamos era o de leccionarmos . Dar aulas era o meu sonho, por isso, disse qualquer coisa do género: A sério, que horror ! Detestava trabalhar num Banco.

A partir daí os nossos papeis na vida parecem ter sido  trocados.
Antes de terminar o curso comecei a trabalhar num Banco e eu, que era dada a paixões platónicas vejo-me quase que de repente,  casada com o meu melhor amigo.

Vivemos anos e anos, afastadas mas próximas.
Hoje já depois de atravessarmos o meio século de caminho, os nossos silêncios são carregados de palavras. E quando falamos é sempre  uma continuação.
Como a definir?

Definitivamente a minha melhor amiga, aquela que me conhece tão bem ou melhor do que eu própria!
Muito redutor para condensar todos os mundos que carrega em si.
Uma poesia para a descrever ? Talvez a primeira estrofe de um poema de  Mário Sá Carneiro:
  
Quase
Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Porque esta ? Porque o golpe de asa ainda pode chegar.
Com ela, nunca se sabe!
Projecções futuras:


A do lado direito és tu claro, a outra sou eu . Repara como continuas espevitada!

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Gifts before Christmas. 2

Foi uma verdadeira surpresa.A música tem uma harmonia que me faz lembrar os Pink Floyd.
A letra  encaixa perfeitamente no meu pequeno mundo.
[Nicholas:]
Where did we come from?
Why are we here?
Where do we go when we die?
What lies beyond
And what lay before?
Is anything certain in life?

They say, "Life is too short,"
"The here and the now"
And "You're only given one shot"
But could there be more,
Have I lived before,
Or could this be all that we've got?

If I die tomorrow
I'd be all right
Because I believe
That after we're gone
The spirit carries on

I used to be frightened of dying
I used to think death was the end
But that was before
I'm not scared anymore
I know that my soul will transcend

I may never find all the answers
I may never understand why
I may never prove
What I know to be true
But I know that I still have to try

If I die tomorrow
I'd be allright
Because I believe
That after we're gone
The spirit carries on

[Victoria:]
"Move on, be brave
Don't weep at my grave
Because I am no longer here
But please never let
Your memory of me disappear"

[Nicholas:]
Safe in the light that surrounds me
Free of the fear and the pain
My questioning mind
Has helped me to find
The meaning in my life again
Victoria's real
I finally feel
At peace with the girl in my dreams
And now that I'm here
It's perfectly clear
I found out what all of this means

If I die tomorrow
I'd be allright
Because I believe
That after we're gone
The spirit carries on

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Gifts before Christmas.

The Fool on the Hill.

Ainda o Pedro.

Gostava de te ter tido como colega de escola.

Gostava que as nossas idades estivessem trocadas. Tu com dez, onze  anos e  eu dois anos mais nova.

Eu chamava-me Inês e tu, apenas por coincidência cromática, mantinhas o nome de Pedro.
Eu vivia no andar por baixo do teu e a minha mãe tinha combinado com a tua, seres tu a levar-me para a escola e seres responsável por mim.
De manhã, muito antes de tu saíres já eu estava sentada nas escadas, com a pasta pronta, a cara e o cabelo bem penteado, sentada, quietinha à espera de ouvir bater a tua porta e começares a deslizar, com a pasta às costas pelo corrimão.

Nos primeiros tempos quando me vias fazias travagens rápidas, punhas - te de pé, sério e dizias sem esconder o verdadeiro frete que tudo aquilo era: Anda!
      
Saltavas os degraus, saías para a rua e não te preocupavas sequer em saber se eu te seguia ou não. Tinhas a certeza de que vinha, mais ou menos entre corrida e passo, atrás de ti. 
  
Um dia o caminho da escola tomou um rumo diferente. Subimos para um autocarro de dois andares e disseste: Anda!

Nem tive coragem de perguntar pela escola, fui.
Subimos para o andar de cima e logo no primeiro banco, depois da escada, estava um senhor já com alguma idade, com uns óculos de lentes de fundo de garrafa e uma saca de plástico cheia de coisas encostada ao peito. Estava sentado junto à janela, com o nariz quase colado ao vidro.

Anda, dizias sem olhar. Sentamo-nos os dois no banco da frente, com uma imensidão de vidro à nossa volta.
Via as casas todas por dentro, os jardins, os cães, sentia-me poderosa, de tal modo que te perguntei: Pedro onde vamos?

Tu devias estar a viver uma situação idêntica de alegria, porque pela primeira vez, depois de tantos meses, olhamos um para o outro e disseste: Vamos à Foz, vamos ver o mar.

Devo ter ficado com lágrimas nos olhos, tinha medo e ao mesmo tempo não percebia como era possível tudo aquilo estar a ser tão fantástico: Pedro e se nos perdemos? Sabes voltar para casa? 

Soubeste. A partir desse dia partilhamos segredos de pedrinhas que apanhamos no mar, meias molhadas e cheias de areia, corridas para ver quem era o primeiro a desistir.

De repente, ao olhar o horizonte uma imensa laranja gigante dirigia-se lentamente para uma linha muito recta que víamos ao longe no mar.

Sentamo-nos em silêncio. Acho que só voltamos a respirar quando o sol desapareceu e deixou no horizonte uma espuma alaranjada.

Custou a levantar, os olhos ainda estavam cheios de cor de laranja. 

No regresso quando subimos para o segundo andar do autocarro sentamo-nos no primeiro banco que vimos, e foi com o abanar do condutor que acordamos os dois, na Av dos Aliados, sem perceber bem o que tinha acontecido.

A partir daí ficamos os melhores amigos do mundo. Como por magia, nunca mais me disseste: Anda.

No regresso a casa, a subir penosamente a Rua dos Clérigos, disseste suavemente;  vamos Inês, já só falta um bocadinho.       

Ensaios sobre estar vivo. 2º

 Os amigos.

Não sei desenhar, mas se soubesse, pintaria assim o teu  retrato:

Pedro olhava o mar.
Atravessava o jardim , passava pelas pessoas , mas o seu olhar estava direccionado para o azul acinzentado do mar.
Carregava de miúdo tristezas antigas, que escondia entre palhaçadas , frases e gestos largos que ficavam a ecoar pela rua. 
Quando pensava no que viveu, sentia picos de dor na alma, ao recordar coisas de miúdo e adolescente.
Essa dor fazia com que o sofrimento alheio lhe entrasse nos poros.
Palavras brutas, gestos inesperados, levavam com que qualquer pessoa pensasse que ele estaria noutra realidade.
Mas o que ninguém suspeitava, era que Pedro  guardava e vivia em si, todas as realidades.
Passadas, presentes e futuras.
A vida nele, corria como vento suave, ao qual ele seguia sem questionar.  
A solidão sempre espreitou todos os seus recantos de gente, materializou-se vezes sem conta nas perguntas que nunca fez, nas que fez e não queria fazer.    

Nasceram filhos.
Nessa altura o vento era morno e reconfortante, foi por ele que travou pela primeira vez uma luta de "egos" com o vento. Ele empurrava-o para caminhos onde os seus filhos não estariam. 
Fez força.
Resistiu e ganhou.
Um dia emprrramram-no e foi o fio condutor do vento que o agarrou, voltou a deixar-se conduzir.

Normalmente ria alto, com gargalhadas sonoras que abafavam a dor de se sentir gente.
Houve mais uma tentativa de família, à convivência com os seus filhos, juntou o vento outros três da sua nova mulher. Passaram anos de vida familiar, em que o  vento se tornou brisa que percorria a casa e a suas vidas.
Acabou, se bem que nada acaba de verdade, ficam as fotografias mentais de todo o que fizemos, dissemos, omitimos.

Teve mais amores e  outras tantas dores.

Ás vezes, acha, daquele achar que nos amarfanha a alma, que não teve nada disso.
Sabe, isso sabe, que tem saudades da mãe e gosta do mar.
Gostava de estar dentro da sua barriga , aconchegado e protegido.
Gostava, em determinadas alturas , de ter sido um homem grande e forte como um carvalho antigo,  para a proteger.

Mas...era apenas um miúdo, e doí pensar que era apenas um miúdo.
Sabe que gosta do mar !
Ás vezes acha que não gosta de  gente.

E sem o vento nunca desconfiar, guarda ciosamente o seu segredo, vive sempre conduzido por ele , mas a sonhar.
Mal ele sonha agora, que o vento se prepara para o deixar.      

Ensaios sobre estar vivo. 1º

As palavras condicionam -nos. Ou nos libertam para espaços desconhecidos, ou dão cores completamente opostas aos pensamentos. Muitas vezes criam situações constrangedoras, mas a maior parte do tempo parecem ser extraordinariamente livres!
Rodopiam pelo mundo assentes numa vontade própria, criando linguagens que nos transcendem.

Reparo que para muitas pessoas ser banal, ter um trabalho rotineiro, não querer nada de muito particular, nem com muito empenho é quase como estar na vida sem estar.

Como reparo, de que maneira podem estar enganadas, as pessoas que assim pensam!

Cada vez acho mais, que é na simplicidade, seja ela materializada na cara de uma criança a acordar, numa luz suave que entra pela vidraça afastando o mofo da velhice, num gesto de um amigo que está lá sempre para nos aturar...cada vez acho mais, que nestes momentos mágicos que trespassam diariamente a nossa vida, as palavras não são necessárias, aliás só perturbariam o  momento, como birra de criança mimada.

O milagre da palavra é que por si só, implica acção, o idioma comum a cada país, nada é mais que a tradução oral dos seus tiques, usos e costumes.

Como os animais têm movimentos mais parecidos com os nossos, é-nos mais fácil entender a sua linguagem e pressupor o seu comportamento, mas a mim o que me fascina profundamente são as árvores, as flores e todas as plantas de um modo geral.

De que falam elas, como falam elas?
Que dizem os troncos aos ramos, que dizem os ramos ás folhas quando caem e os abandonam?
Os rebentos de folhas e flores na Primavera assustam-se com os primeiros raios de sol? 
Quantas histórias de amor e desamor terá havido entre pássaros e flores , quantos ramos de árvore terão ficado à espera da família de pássaros que há vários anos fazia ninho no seu tronco e num determinado ano não voltou?

Afinal não há vidas banais, vive-se nada mais !

     

sábado, 26 de novembro de 2011

Eva Cassidy.

Prémio Nobel da Mãe.

Sou uma mãe em construção.

Ser mãe é a mais antiga profissão do mundo. 
Prostitutas são filhas de alguém , muitas vezes mães também.
Os prosaicos "clientes" são filhos de alguém, a maior parte das vezes pais também .

Se não houvesse uma mãe, não existiria o mundo  humano e animal tal como o conhecemos.
No mundo actual e ocidental onde nasci, há imensas facilidades.
Tenho uma casa para mim aconchegante, emprego razoável, posso dar-me ao luxo de comprar livros que gosto, música que me encanta, ir ao médico se estiver doente, abrir a torneira e beber água se tiver sede.

Tenho tempo para filosofar com os amigos, para estar em silêncio se me apetecer.
Nada me falta, posso inclusive morrer por excesso!

Sou uma mãe em construção, mas muito, muito privilegiada.
Europeia do sul, tenho praias com sol, mar e calor onde brincar com as crianças, mostrar as conchinhas, apanhar pedras coloridas que o mar  oferece, brincar com os filhos fazendo grinaldas de algas, ou sandálias romanas que cruzam as pernas.

Tive tempo para lhes contar histórias à noite, para cantar e passear de mãos dadas pelas ruas da cidade, por jardins encantados, tivemos, tiveram tempo para crescerem e serem felizes.

Porque a felicidade é sempre passado.
Mesmo num pensamento presente, a partir dessa altura e por esse mesmo motivo já é passado, mas não deixa de ser felicidade.    

Amanhã o Manel faz 20 anos.


Por todas as mães de África e  de todos os cantos do mundo, onde a vida é pesada e densa, como se uma espécie de alcatrão embrulhasse as suas almas, tolhesse os seus movimentos de asas...A todas essas mães, verdadeiras heroínas e estrelas deste mundo, a todas e a cada uma delas entrego o meu coração, a minha alma e a minha mais profunda admiração.

Prémios, são normalmente troca de vaidades.
Ambas as partes se sentem especiais. O que dá, embrulha em discurso uma vaidade institucional, o que recebe, mal consegue esconder a vaidade nas palavras de agradecimento.
 

Para todas as mães a quem tudo falta, inclusive força para se manterem vivas e alimentarem os seus filhos, para todas elas vai o Prémio Nobel da Mãe.

De certeza que não haveria discurso, provavelmente um sorriso suave , que nos torna a todos minúsculos. 



segunda-feira, 21 de novembro de 2011

A vida... A esperança...A inevitabilidade, será?


A excelência.

Nas reuniões de pais do colégio parecia-me sempre que a palavra mais almejada de ouvir por todos, era a famosa frase da Directora, o seu filho/a são excelentes alunos!

Numa escola que busca a excelência e que sobretudo para os alunos que querem entrar para medicina, essa excelência é, a partir do 10º ano, levada muito a sério.

Esqueçam  a vossa adolescência! - diz a directora. Robusta, de cabelo domado por boas doses de laca, olho vivo, ar de controladora, batôm e as unhas vermelhas compõem a solenidade que a ocasião merece.

Sala cheia, encabeçada por uma mesa grande horizontal onde os professores das diversas disciplinas tecem ( na maior parte das vezes ) elogios aos rebentos daqueles pais embevecidos, por tanto 18, 19 e vinte, tanta, mas tanta, excelência Deus meu!!!    

As notas, estão hoje em analogia com a economia, como o crédito, como a dívida, como a burlice de colarinho branco, muito, mas muito inflacionadas.

Chovem dezoitos e dezanoves , como na minha época do liceu eramos corridos a noves e dez.

Tenho dois filhos, nunca faltei a uma reunião.
Normalmente entrava muda e saía calada, só uma vez, quandos quase todos os papás/mamãs das excelências ausentes, atiraram para a fogueira uma professora de filosofia que apanhou a turma no 11º ano, e sem pudor , porque o que interessam os sentimentos perante notas "brilhantes" ??? Repetiram vezes sem conta que os seus filhinhos/as tinham uma empatia muito particular com o professor de filosofia do 10º ano.      
Levantei o dedo para intervir e fui a única a dizer que a minha filha gostava bastante da professora em causa. Sorrimos, ela com os olhos marejados de lágrimas, eu, enjoada de tanta excelência oca.

O melhor que têm os meus filhos?

Tudo aquilo que uma mãe como eu sempre desejou:

Boas recordações de infância.
Corações do tamanho do mundo.
Sonhos de vida onde englobam o bem comum.
Brincadeiras de criança, que tornam os adultos que eles são hoje, em figuras ternurentamente cómicas.

Amanhã a João tem o seu exame da especialidade. Não estou nada preocupada, nem pela excelência, nem pela nota. Quero apenas que termine para ela simplesmente passar a viver... Nem que seja uns meses até começar a trabalhar.

Gosto tanto, mas tanto dos meus filhos e da familia que vai crescendo com os amigos que se tornam tambem como filhos, que só desejo ouvir risos e conversas leves de jovens que têm futuro independentemente de notas, exames, testes.

  


  
     

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

O Outono inventou o Pai Natal.

O Outono inventou a Pai Natal.

Reparem na quantidade de folhas que as árvores oferecem diáriamente.

Para além das folhas, esmeram-se numa infinidade de tonalidades, entre o verde, laranja, amarelo, castanho... E ainda achando pouco, enfeitam estátuas, ruas, casas velhas e sujas.
Quando chove, soltam-se estonteadas pela chuva forte e tornam-se mais pesadas e obedientes.
Com o vento, brincam como crianças a ver quem leva a melhor.
Cobrem as cidades escuras de tapetes coloridos e são de tal forma desprendidas de vaidade, que mesmo   quando pisadas por pessoas aflitas, parecem continuar serenas a sua função.
Dar, colorir, enfeitar.
Desde miúda que todos os Outonos guardo duas ou três folhas em livros.
Com os anos mumificam e tornam-se estaladiças.

A mim aconchegam-me. E todos os dias até as árvores ficarem em troncos nus e escuros, não consigo deixar de as admirar.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Carlos Drummond de Andrade





Por muito tempo achei que a ausência é falta. 
E lastimava, ignorante, a falta. 
Hoje não a lastimo. 
Não há falta na ausência. 
A ausência é um estar em mim. 
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços, 
que rio e danço e invento exclamações alegres, 
porque a ausência, essa ausência assimilada, 
ninguém a rouba mais de mim.



O Porto dos meus afectos.



Dos meus filhos.
Das historias de faz de conta, dos amigos.
O Porto é nome de gente, é humano. Nostálgico nas suas neblinas,  sonhador nos seus anoiteceres de luzes de natal, caseiro nos dias escuros de muita chuva.
Trata todos os que nele vivem como seus filhos, a união é umbilical. 
É tudo muito temperamental, como criança, eternamente criança acaba cansado e adormece ao colo do mar.

domingo, 30 de outubro de 2011

Janela da alma.

Ando na rua com a janela da alma fechada.

Os óculos escuros, bem pretos, filtram os raios de sol e tudo o mais que acontece á minha volta.
Mas a alma que transporto, voa pelos prédios que conheço de cor, coloca como num puzle, antigas casas nos sítios onde já não existem, sorri com ternura para os conhecidos e nesta altura do ano, pelas ruas da baixa do Porto, apanha boleia do fumo das castanhas e serpenteia pelo ar.

domingo, 23 de outubro de 2011

Albert Camus.




A 6 de Novembro de 1984 o meu irmão deu-me um dos livros que mais gostei e que me levou a querer ler tudo o que havia deste autor, "O Avesso e o Direito" seguido de
" Discursos da Suécia".
Esta obra, são ensaios escritos em 1935 e 1936, tinha Camus na altura 22 anos.

".....a miséria impediu-me de crer que tudo está bem debaixo do sol e na história; o sol ensinou-me que a história não é tudo."


Uma das ideias que mais me surpreendeu e reconfortou foi a do poder mágico do sol e do calor, atenuarem o desconforto de uma miséria quase absoluta.

" Encontram-se no mundo muitas injustiças, mas há uma de que não se fala nunca, que é a do clima. De tal injustiça fui por muito tempo, sem o saber, um dos aproveitadores... Quando a pobreza se conjuga  com essa vida sem céu nem esperança que quando cheguei à idade de homem descobri nos horríveis subúrbios das nossas cidades, então a última das injustiças, e a mais revoltante, está consumada:é preciso tudo fazer, com efeito,  para  que esses homens escapem à dupla humilhação da miséria e da fealdade.Nascido pobre, em um bairro de operários, não sabia, contudo, o que era o verdadeiro infortúnio antes de conhecer os nossos arrabaldes frios.Mesmo a extrema miséria árabe não pode comparar-se-lhe, dada a diferença dos climas."     

domingo, 16 de outubro de 2011

Tempos difíceis

Em cada 3, 5 segundos morre um ser humano à fome.

Um... Dois...

"Calcula-se que 815 milhões, em todo o mundo sejam vítimas crónica ou grave de subnutrição, a maior parte das quais  são mulheres e crianças dos países em vias de desenvolvimento."

Porque terei nascido neste lado do mundo? 
Olho para os meus filhos, para a comida diária, para a água sempre pronta a aliviar a sede, para os duches depois de cada banho de mar, ou das caminhadas para manter a forma...
É tudo tão assustadoramente fácil deste lado e precisamente nas coisas que do outro  mais falta fazem.


Tempos difíceis estes



A memória.

A minha memória tem vida própria, muitas vezes foge de mim, outra vezes regressa e não a reconheço.
Começo agora a achar, que graças a ela imensas coisas do meu passado desapareceram e quando em conversas de família ou amigos falam de coisas das quais eu fazia parte, ouça-a a rir baixinho no meu cérebro, quando me ouve dizer:
- O quê ? Não me lembro de nada disso!
  Quando acha que foi longe demais acalma-me com cheiros, sabores e imagens de imensa coisa boa que vivi, sinto-a nessas alturas a lambuzar as minhas bochechas de beijos.
Mantém-se criança irrequieta e traquina, mas extremamente meiga e carente quando tem medo do escuro, quando está cansada e pede colo, ou quando pura e simplesmente tem sono, enrosca-se em mim, põe o dedo na boca e fica a dormir.

 Madeira. Praia de Calhau, o meu pai, os gelados, o musgo nas pedras, os risos e conversas à beira mar.

 Coimbra. A minha avô, os passeios no jardim Botânico, apanhar as folhas e fazer coroas de rei e rainha, os barquinhos de papel   que se punham no lago, as corridas e os cheiros inebriantes de tanta planta em redor.