Francisca nasceu antes do tempo, não muito, mas suficientemente antes para não deixar ninguém à espera.
Característica de que sempre fez uso, nem que fosse para uma simples festa de anos, tinha sempre que chegar uma meia - hora antes, esperava e à hora marcada lá entrava ela onde quer que fosse, como se tivesse acabado de chegar.
De cabelo muito escuro, logo no primeiro dia levantou diversas vezes o pescoço, parecendo querer fazer o reconhecimento do novo mundo.
Foi embrulhada num amor imenso, primeira neta pelo lado da mãe, primeira filha para um casal de pais babados, pioneira num novo modo de vida para toda a família.
Arrebitada chorou nas primeiras tentativas de entrada para o colégio, passou por três ou quatro, até que escolheu um (deve ter sido, porque deixou de chorar) para onde entrou com quatro anos e saiu com quase toda a turma para o liceu, no 6º ano.
Independente, maria- rapaz, detestava barbies, adorava cães e cavalos, excelente desportista, não parava quieta.
No entanto, se tivesse que estar de pé uma hora a ouvir uma conversa de adultos que não lhe dizia nada, assim o fazia, sem interromper uma única vez a queixar-se de que estava cansada, ou coisa do género.
O irmão João, nasceu quatro anos e meio mais tarde, de parto marcado, cara de rapaz, levou logo o polegar à boca, só o voltando a tirar por volta dos doze anos.
Alegria e amor aos molhos, numa família maioritariamente feminina.
Andava sempre, mas sempre atrás da sua "Tica" como chamava à irmã.
Coscuvilhava quando já dava os primeiros passos, os seus armários, remexia em todas as suas coisas, o que para a Francisca foi uma lição de paciência e partilha uma vez que, deixou de ter nela todas as atenções concentradas, passando a ser ela muitas vezes, uma verdadeira auxiliar da mãe ao tomar conta do João.
Os pesadelos nocturnos do irmão, que chegava a ter medo que chegasse a noite, foram durante anos colmatados pela companhia da Francisca na sua cama, que já reconhecia o significado de todas as suas formas de respirar.
Aos três anos do João, passam os dois a andar no mesmo colégio.
Os percursos a pé para a escola ainda hoje são recordados, pelas brincadeiras, pelos jogos das "escondidinhas" da Francisca nas entradas das portas das casas por onde passavam a caminho de casa.
Com metade do corpo de fora ( foi sempre muito magrinha) a mãe fingia que não a via e enquanto empurrava a cadeirinha onde se sentava um João pachorrento e a chuchar no dedo ( ao contrário da irmã era pequenino e uma bolinha fofa num macacão de ganga) ia dizendo:
- Ai meu Deus, onde estará a minha filha, a minha menina tão adorada? ( voz de desespero, em tom baixo, claro! )
Então saía a Francisca resplandecente, com os olhos maravilhados por ter conseguido esconder-se sem ninguém dar por nada: - Estou aqui !
E assim continuavam até chegar a casa, com o João refastelado na cadeira de criança , a chuchar no dedo e seguindo com o olhar todas aquelas aventuras de desaparecimentos com aflições e surpreendentes aparecimentos cheios de alegria.
João transformou-se num rapagão de ombros largos e com mais de 1,80m, bom desportista, pratica esgrima de competição e gosta de tudo o que é desporto.
Com imensa paciência para ouvir, cria grande empatia com os velhinhos e todos aqueles que, de algum modo parecem mais fracos.
Francisca que sempre fora no registo dos "percentis", na curva da altura acima da média para a idade e na do peso, abaixo da média para a idade, mantém aos 24 anos um ar de miúda de 17.
Mas ao observa-los ao longe, há momentos em que pelas suas gargalhadas, pelas suas trocas de olhares ou rabugice, voltam a ser os dois apenas crianças que continuam a brincar.